Philomathēs Matheus Soranço

Renan Santos e o que ele aprendeu com Lênin e Mao

Publicado em
Tipo
Ensaio
Leitura
27 min de leitura
Idioma
pt-BR
Assinado como
Alexei Zhakev

“O velho mundo está morrendo e o novo mundo tarda a aparecer; nesse claro-escuro, surgem os monstros.” — Antonio Gramsci, Cadernos do Cárcere


Prelúdio: A Piada que a História Conta a Si Mesma

Existe uma categoria especial de ironia histórica que transcende o mero paradoxo e chega ao território do grotesco cômico: a ironia de quem abraça com fervor os instrumentos que jurou destruir. A história está repleta dessas figuras — o republicano que governa como monarca, o revolucionário que constrói o mesmo despotismo que derrubou, o liberal que defende a liberdade apenas para si e para os seus. São figuras que, sem perceber ou sem querer admitir, copiam com fidelidade quase artística os manuais daqueles que odeiam.

Renan Santos, fundador e líder do Movimento Brasil Livre e do Partido Missão, apresenta-se ao mundo como o antídoto intelectual ao caos político brasileiro. Ele é, na sua própria narrativa, o estrategista sério numa era de agitadores vazios, o construtor de quadros numa democracia de memes, o filósofo-guerreiro numa república de palmeiros. Ele critica, com raiva genuína e articulada, o que chama de “bolsonarismo folclórico” — populismo irracional baseado em emoção, culto à personalidade e ausência de projeto real de nação.

E, ao fazer isso, ao construir sua alternativa cuidadosa e metodicamente, Renan Santos recriou — com uma fidelidade que beiraria o plágio se não fosse tão obviamente inconsciente — o modelo organizacional de Vladimir Ilyich Lenin.

Esta é a piada. E ela tem sete mil palavras.


Parte I: O Problema do Vanguardismo — Uma Introdução Filosófica

Para entender a ironia central deste ensaio, é necessário primeiro compreender o que os cientistas políticos e filósofos entendem por “vanguardismo” como teoria política. O conceito não nasceu com Lenin, embora ele seja o seu sistematizador mais famoso e brutal. A ideia de que uma elite iluminada deve guiar as massas em direção a um destino que elas próprias não conseguem enxergar remonta pelo menos a Platão e sua República, onde os filósofos-reis governam porque são os únicos capazes de contemplar a verdade.

Lenin, no entanto, foi o primeiro a transformar esse conceito filosófico em tecnologia política operacional. Em seu texto seminal “Que Fazer?” (1902), ele argumentou contra a ideia de que a classe operária, por si só, poderia desenvolver uma consciência revolucionária genuína. Deixados a seus próprios dispositivos, os trabalhadores chegariam apenas ao que ele chamava de “consciência sindicalista” — a capacidade de perceber injustiças imediatas e lutar por melhorias pontuais de salário e condição de trabalho. Para a revolução real, para a transformação estrutural da sociedade, era necessário um partido de quadros profissionais, disciplinados, intelectualmente formados, que carregasse a consciência revolucionária de fora para dentro da classe trabalhadora.

A formulação leninista tem uma elegância cruel. Ela resolve o problema democrático de forma cirúrgica: se o povo não sabe o que é bom para si, alguém precisa saber por ele. E esse alguém, naturalmente, deve ser organizado, hierarquizado, disciplinado e dotado do método correto de análise da realidade. O partido, nessa concepção, não é um instrumento da vontade popular — é o portador da verdade histórica que o povo ainda não alcançou.

Lenin complementou isso com o princípio do centralismo democrático: dentro do partido, o debate é livre e vigoroso até que uma decisão seja tomada pela cúpula. Após isso, a obediência é absoluta e pública. A dissidência externa é traição.

Mao Zedong aprofundou esse modelo de uma forma particularmente perturbadora. Para Mao, a revolução não era apenas política ou econômica — era cultural e psicológica. Era necessário transformar a mente do povo, “curar” as deformações impostas pela cultura burguesa ou feudal, criar um “Homem Novo” ideologicamente puro. Daí as sessões de autocrítica, os campos de reeducação, a Revolução Cultural como projeto de engenharia da alma humana.

Agora, com esse arcabouço conceitual em mente, considere o seguinte conjunto de fatos sobre Renan Santos e o Partido Missão.


Parte II: O Arquiteto e Sua Obra — Retrato de Renan Santos

Renan Santos não chegou ao cenário político pela via tradicional do carisma popular. Ele chegou pela via da organização. Desde os primeiros anos do MBL, no contexto do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, ele se posicionou como o estrategista, o pensador, o homem que via o tabuleiro inteiro enquanto os outros enxergavam apenas as peças imediatas.

Essa autoimagem é central para compreendê-lo. Renan não é, e nunca pretendeu ser, um líder de massas no sentido convencional. Ele não tem o carisma magnético de Lula, nem o talento performático de Nikolas Ferreira. O que ele tem — e cultiva deliberadamente — é a aura do estrategista frio, do analista que enxerga além da superfície emocional do debate público.

Essa autoimagem é reforçada por uma série de comportamentos e decisões políticas. A fundação da Academia MBL, um programa de formação política que treina jovens em retórica, história, economia e estratégia eleitoral, é talvez o exemplo mais revelador. Não se forma quadros políticos a partir de um pressuposto igualitário sobre a capacidade do eleitor médio. Forma-se quadros a partir da premissa de que o eleitor médio precisa de guias — e que esses guias precisam de treinamento especializado.

O Livro Amarelo, o documento programático do Partido Missão, completa essa arquitetura. Ele não é simplesmente um programa de governo — é uma visão de mundo codificada, um conjunto de doutrinas que os membros do partido devem internalizar e defender publicamente. Os candidatos do Missão são treinados para citar o Livro Amarelo, para aplicar seus princípios, para manter coerência doutrinária. Renan frequentemente testa e cobra essa coerência em transmissões ao vivo, criticando membros que “desviam” da linha do partido.

O conteúdo do Livro Amarelo em si é fascinante na sua tentativa de síntese: liberalismo econômico pragmático (não ideológico), combate radical ao crime organizado, eficiência estatal em vez de Estado mínimo, educação por resultados, institucionalismo democrático. É uma tentativa de criar uma “terceira via de direita” que escape tanto do bolsonarismo emocionalmente instável quanto da direita tradicional cooptada pelas elites econômicas convencionais.

Mas o conteúdo, por mais interessante que seja como exercício de policy-making, é secundário para os fins deste ensaio. O que interessa aqui é a forma — o método organizacional, a filosofia de ação política que sustenta tudo isso. E é na forma que a ironia se torna irresistível.


Parte III: O Espelho Invertido — Os Paralelos com Lenin

3.1 A Vanguarda Intelectual

A comparação mais direta e mais devastadora é a que já mencionamos: a teoria da vanguarda. Lenin acreditava que o proletariado precisava de um partido de intelectuais profissionais para guiá-lo rumo à revolução porque era incapaz de desenvolver, sozinho, a consciência necessária para compreender sua própria situação histórica.

Renan Santos, com a diferença de vocabulário exigida pelo século XXI e pela inversão ideológica, acredita essencialmente a mesma coisa sobre o eleitorado brasileiro. Em lives frequentes, ele lamenta a “burrice” do brasileiro médio, a incapacidade do eleitor de compreender questões econômicas complexas, a facilidade com que as massas são manipuladas por figuras como Lula ou enganadas por populistas como Bolsonaro. A Academia MBL existe precisamente para criar a camada de quadros intelectualizados que irão, de cima para baixo, levar a consciência política correta para onde o povo sozinho não chegaria.

A diferença de conteúdo é óbvia: Lenin queria levar a consciência de classe ao proletariado, Renan quer levar o liberalismo “correto” ao eleitorado de direita. Mas a estrutura do argumento é idêntica: o povo é insuficiente, a vanguarda é necessária, a vanguarda é composta pelos que já iluminados pelo método correto.

Há aqui uma ironia de primeira ordem que merece pausa para contemplação. O MBL nasceu, em grande parte, como reação ao PT e ao que ele representava: o elitismo paternalista de uma esquerda que sabia o que era bom para o povo melhor do que o povo sabia para si mesmo. A crítica da direita liberal ao lulopetismo sempre incluiu, de forma proeminente, a acusação de que a esquerda tratava os cidadãos como incapazes de tomar suas próprias decisões — daí as políticas de cotas, os programas sociais paternalistas, a “pedagogia da opressão” nos currículos universitários.

E o que Renan construiu como alternativa a esse paternalismo de esquerda? Um paternalismo de direita com Academia própria, Livro Sagrado e sessões de correção ideológica ao vivo.

3.2 O Centralismo Democrático

Lenin sistematizou o centralismo democrático como princípio organizacional do Partido Bolchevique: o debate interno é encorajado até que a direção tome uma decisão; após isso, todos os membros devem defender publicamente essa posição, independentemente de concordâncias ou discordâncias pessoais. A unidade pública é inviolável.

O funcionamento do MBL e do Partido Missão replicam esse modelo com uma fidelidade que transcende a coincidência. Quando Renan decidiu pelo voto nulo nas eleições presidenciais de 2022, todos os membros e candidatos alinhados ao movimento foram convocados a defender essa posição publicamente. Quem discordou — como aconteceu com alguns membros que preferiram apoiar candidatos de terceira via — foi isolado, criticado ou afastado.

O caso Arthur do Val (Mamãe Falei) é particularmente ilustrativo nesse sentido. Quando do escândalo envolvendo seus comentários misóginos sobre mulheres ucranianas durante visita à Ucrânia em 2022, a reação inicial de Renan foi de defesa exaltada do colega — não necessariamente porque concordava com o que foi dito, mas porque a lógica do centralismo democrático exige lealdade à “tropa” antes da avaliação moral individual. A gestão do escândalo revelou exatamente o funcionamento de um partido que prioriza a coesão do grupo sobre a coerência ética.

Isso não é apenas uma crítica de comportamento — é uma crítica estrutural. Um partido que funciona sob a lógica do centralismo democrático produz necessariamente o que Lenin produziu: eficiência tática no curto prazo (como a eficiência demonstrada no impeachment de Dilma) às custas do pluralismo intelectual no longo prazo. Os membros aprendem a falar a língua do líder, a pensar nas categorias do Livro Amarelo, a perceber o mundo através das lentes do método proprietário da cúpula. E assim, gradualmente, o partido se torna menos um conjunto de cidadãos com convicções próprias e mais um conjunto de técnicos em reprodução de discurso.

3.3 A Reeducação e a “Cura do Pensamento”

Talvez o paralelo mais perturbador — e mais satiricamente rico — seja com a prática maosta de “reeducação”. Mao institucionalizou as sessões de autocrítica como mecanismo de manutenção da pureza ideológica do partido: membros que haviam “desviado” da linha correta eram submetidos a processos públicos de confissão e correção, frequentemente humilhantes, através dos quais reinternalizavam a doutrina oficial.

Renan Santos faz isso ao vivo, pela internet, para dezenas de milhares de pessoas.

Não é exagero descritivo. Em transmissões regulares, Renan frequentemente para a discussão para “corrigir” alguém — seja um espectador que fez uma pergunta “errada”, um militante que usou um argumento que considera fraco, ou um candidato do Missão que “desviou” em alguma declaração pública. Ele usa um estilo que ele mesmo descreve como de “general” — incisivo, frequentemente agressivo, com gritos e imposições de ritmo —, que combina o prazer performático do debate com a função disciplinar de demarcar os limites do pensamento aceitável dentro do movimento.

A transmissão ao vivo tem aqui uma função que vai além da comunicação: ela é o espaço ritual de reprodução da ortodoxia. É onde se define o que é “certo” e o que é “errado” pensar, e onde os membros do movimento se socializam na língua do líder. A diferença entre isso e as sessões de autocrítica maostas não é de natureza, mas de sofisticação tecnológica e, felizmente, de consequências — Renan não pode mandar ninguém para um campo de reeducação. Pelo menos por enquanto.


Parte IV: A Ironia Filosófica — Quando o Antídoto É o Veneno

Chegamos ao coração filosófico deste ensaio, onde a ironia se transforma em questão genuinamente relevante para a teoria política: o que significa, exatamente, usar os instrumentos do adversário ideológico para combatê-lo?

Essa não é uma questão trivial. Ela toca em debates fundamentais sobre meios e fins na política, sobre se a forma de uma organização política condiciona inevitavelmente seus resultados, e sobre os limites da “pragmática” como justificativa para escolhas organizacionais.

4.1 A Tese da Contaminação — Rosa Luxemburgo contra Lenin

Há uma crítica de Rosa Luxemburgo a Lenin que permanece uma das mais penetrantes da teoria política do século XX. Em 1904, antes mesmo da revolução bolchevique, Luxemburgo advertiu que o centralismo democrático leninista era um erro fatal:

O projeto de Lenin, argumentou ela, era construir um partido tão disciplinado e centralizado que o resultado inevitável seria o esmagamento da iniciativa e da criatividade das massas. A hierarquia rígida, a obediência incondicional às resoluções da direção, a distinção entre os “especialistas em revolução” da cúpula e a massa de militantes — tudo isso criaria não uma vanguarda da classe trabalhadora, mas uma tutela sobre ela. E uma vanguarda que tutela as massas, eventualmente, as substituirá.

A história deu razão a Luxemburgo de forma assombrosa. O partido bolchevique, construído sobre os princípios leninistas, tornou-se o instrumento da ditadura sobre o proletariado que pretendia libertar. Cada elemento estrutural que Lenin considerava uma virtude — a disciplina, a hierarquia, o centralismo, a vanguarda intelectual — tornou-se, uma vez no poder, um mecanismo de opressão.

A questão que Luxemburgo nos obriga a fazer sobre Renan Santos é perturbadora: existe algo na lógica interna do vanguardismo que o conduz inexoravelmente ao autoritarismo, independentemente do conteúdo ideológico? Seria o modelo organizacional leninista como uma armadilha estrutural que contamina qualquer ideologia que o adote — incluindo o liberalismo de mercado?

A resposta provisória da ciência política é: provavelmente sim, no longo prazo. Um partido que opera sob a lógica da vanguarda intelectual tende a desenvolver os seguintes patologias progressivas: a confusão entre as convicções da liderança e as necessidades reais da população, a crescente intolerância à dissidência interna, a tendência a tratar qualquer derrota eleitoral como resultado da “ignorância” do eleitorado em vez de como feedback legítimo, e a substituição gradual do projeto público pelo projeto pessoal do líder. Essas patologias não dependem do conteúdo ideológico — elas são consequências da estrutura.

4.2 A Ironia da Origem — O MBL contra o MBL

A ironia se aprofunda quando consideramos a origem do MBL. O movimento nasceu em 2014, em grande parte inspirado em movimentos estudantis liberais europeus e norte-americanos, com uma proposta radicalmente diferente do que Renan construiu: era para ser uma rede descentralizada, plural, de baixo para cima, que espalharia o pensamento liberal pela sociedade brasileira sem a hierarquia da “velha política”.

Os próprios fundadores escreviam sobre o perigo dos partidos tradicionais, do “caciquismo” político, da lógica da obediência que corrompera tanto a esquerda quanto a direita brasileiras. A descentralização e o pluralismo eram princípios fundadores, não apenas táticas.

O que Renan construiu a partir disso é o exato oposto: um partido centralizado, hierarquizado, com um documento doutrinário obrigatório, uma academia de formação de quadros, e uma liderança carismática que corrige publicamente os desvios dos militantes.

Houve, em algum ponto dessa trajetória, uma Revolução Cultural interna. O MBL original foi destruído pela lógica que Renan abraçou, da mesma forma que os ideais da revolução bolchevique foram destruídos pela lógica leninista que os conduziu ao poder. E o responsável por essa destruição e reconstrução é o próprio Renan — que, ao estilo dos revolucionários que admira secretamente, denunciou o “liberalismo simplista” dos primeiros anos do MBL como um erro de juventude.

A autocrítica é perfeita demais para ser coincidência. Lenin também revisou e denunciou suas posições anteriores quando elas se tornaram inconvenientes. Mao também. A capacidade de mudar de posição mantendo a aura de consistência é uma das marcas do líder vanguardista: quando a linha muda, não é porque o líder errou, mas porque a “situação histórica se desenvolveu” e exigiu uma atualização do método.

4.3 O Paradoxo da Liberdade Autoritária

Existe aqui um paradoxo filosófico de primeira magnitude que merece nome próprio: chamemos de Paradoxo da Liberdade Autoritária. Ele pode ser formulado assim:

Um movimento que defende a liberdade individual como seu valor central não pode defender essa liberdade de forma autoritária sem se destruir enquanto projeto filosófico, embora possa sobreviver — e até prosperar — enquanto projeto político.

Em outras palavras: Renan pode construir um partido eficiente, eleger deputados, influenciar o debate público e até concorrer à presidência usando um modelo organizacional que contradiz frontalmente os valores que ele diz defender. A contradição não o destrói eleitoralmente — pode até ajudá-lo, porque eleitorados fragmentados e desconfiantes das elites muitas vezes respondem bem à disciplina e à aparência de método. Mas ela o destrói filosoficamente, tornando seu projeto intelectualmente incoerente no nível mais fundamental.

Um liberal que organiza sua militância como Lenin organizou os bolcheviques não é um liberal que usa táticas autoritárias por necessidade pragmática — é um autoritário que usa a linguagem liberal como bandeira de recrutamento. A distinção importa para a filosofia política, mesmo que seja irrelevante para as urnas.

Karl Popper, no seu fundamental “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”, identificou esse padrão de forma precisa: os maiores inimigos da sociedade aberta não são sempre os que a atacam frontalmente, mas os que a defendem com instrumentos que a solapam. Quem defende a liberdade de pensamento através de uma estrutura que pune o pensamento divergente não está, de fato, defendendo a liberdade — está colonizando o seu nome.


Parte V: O Contexto Histórico — Por Que Isso Acontece Agora

A comparação entre Renan Santos e as vanguardas do início do século XX não é apenas um exercício intelectual. Ela aponta para um fenômeno mais amplo e mais perturbador: estamos vivendo um momento histórico que, em múltiplas dimensões, ressoa de forma inquietante com o início do século XX.

5.1 A Crise de Legitimidade da Democracia Liberal

O início do século XX foi marcado pela percepção generalizada de que a democracia liberal — tal como praticada nas nações europeias — era um sistema corrupto, lento, incapaz de responder às exigências de um mundo em transformação acelerada pela industrialização. Essa percepção criou o espaço ideológico para as alternativas que conhecemos: o fascismo, com sua promessa de ordem, nação e liderança forte; e o comunismo, com sua promessa de igualdade radical e racionalidade científica aplicada à organização social.

Hoje, a democracia liberal enfrenta uma crise de legitimidade análoga, embora os motores sejam diferentes. A globalização neoliberal das últimas quatro décadas produziu desigualdades estruturais que o sistema político não conseguiu endereçar de forma convincente. As elites tradicionais — políticas, econômicas, midiáticas, intelectuais — perderam a credibilidade que sustentava a aceitação popular de suas decisões. E as novas tecnologias de comunicação destruíram os intermediários que, por toda a era moderna, filtravam e estruturavam o debate público.

Nesse contexto, figuras como Renan Santos emergem como sintomas antes de serem soluções. Eles prosperam porque articulam, com mais clareza do que os partidos estabelecidos, a raiva e a desconfiança de parcelas significativas da população em relação ao sistema como um todo. Mas, ao fazê-lo, frequentemente propõem remédios que replicam, em nova configuração ideológica, as doenças que pretendem curar.

5.2 A Revolução da Comunicação e a Política como Estética

Walter Benjamin, escrevendo nos anos 1930, identificou uma característica fundamental do fascismo: a estetização da política. O fascismo substituía o debate sobre conteúdo pela encenação da forma — os desfiles militares, os uniformes, os símbolos, o ritual de massa. A política deixava de ser a negociação entre interesses conflitantes para ser a celebração estética de uma identidade coletiva.

O paralelo com a política contemporânea das redes sociais é doloroso de encarar. A peruca de Nikolas Ferreira, os cortes épicos de discursos parlamentares com trilhas sonoras dramáticas, o estilo “general” de Renan nas suas lives — tudo isso é política como estética, conteúdo como performance, debate como entertainment. A diferença entre o rádio de Goebbels e o TikTok de um influenciador político de 2026 não é de natureza, mas de escala, velocidade e profundidade de personalização.

Renan Santos tem uma consciência parcial desse fenômeno, o que o torna ainda mais interessante como caso de estudo. Ele critica explicitamente a política de “memes” e de “barulho vazio” — em outros termos, ele critica a estetização da política que caracteriza Nikolas Ferreira. E, ao fazê-lo, ele mesmo estetiza sua política de uma forma diferente: não como festa popular, mas como academia intelectual, como guerra estratégica, como missão histórica de uma vanguarda. Ele troca a estética do populismo pela estética do vanguardismo. Ambas são estéticas.

5.3 O Retorno do Homem Novo

A ideia do “Homem Novo” — o cidadão ideologicamente transformado pela revolução, purgado das deformações do sistema anterior — foi central tanto para o fascismo quanto para o comunismo do século XX. O fascismo queria o soldado disciplinado, leal, pronto para o sacrifício pela nação. O comunismo soviético e chinês queria o camarada consciente de classe, coletivo, despersonalizado em favor do partido.

A Academia MBL e o sistema de formação do Partido Missão têm como objetivo declarado a produção de uma nova elite política — jovens formados em retórica, economia, história e estratégia, portadores do método “correto” de análise da realidade política brasileira. Não é o Homem Novo no sentido coletivista do século XX, mas é o seu equivalente individualista e liberal: o Novo Político, o candidato treinado, o militante que conhece o Livro Amarelo.

O projeto é, em si mesmo, completamente compreensível como resposta a um problema real: a política brasileira é, de fato, devastada pela ignorância, pelo populismo e pela ausência de quadros com formação técnica real. Formar candidatos que entendam de economia, que saibam argumentar, que tenham projeto político concreto é, abstratamente, um bem. O problema é o modelo. Quando a formação política é conduzida por uma única organização, em torno de um único documento doutrinário, validada por um único líder, ela produz não pensadores independentes mas reprodutores de discurso. Ela produz militantes, não estadistas.


Parte VI: A Sátira — Ou, o Que Acontece Quando se Leva a Ironia a Sério

Chegou o momento de explorar a dimensão propriamente cômica dessa situação. Porque há algo genuinamente hilário — no sentido filosófico de absurdo cômico revelador — em um homem que:

  1. Dedica sua vida intelectual a combater o marxismo e suas derivações autoritárias;

  2. Funda um partido para defender o liberalismo econômico e a livre iniciativa;

  3. Organiza esse partido segundo os princípios do centralismo democrático leninista;

  4. Cria uma academia de formação de quadros inspirada no modelo vanguardista bolchevique;

  5. Produz um documento doutrinário obrigatório que funciona como o equivalente de um Manifesto do Partido;

  6. Conduz sessões públicas de correção ideológica ao vivo que lembram as autocríticas maostas;

  7. Utiliza a linguagem da guerra total e da “missão histórica” que é a marca retórica das vanguardas revolucionárias;

  8. E, para completar o quadro, se autoproclama a única alternativa intelectualmente séria ao caos político — exatamente como Lenin se proclamava a única alternativa à espontaneidade burguesa.

Se fosse personagem de ficção, Renan Santos seria uma criação de Dostoiévski: o homem que, em seu projeto de curar a doença, se infecta com ela e a espalha com mais eficiência do que os doentes originais.

A ironia tem uma dimensão adicional que merece sublinhado: Renan Santos é explicitamente consciente do problema leninista. Em entrevistas e lives, ele demonstra familiaridade com a crítica ao centralismo excessivo, ao culto à personalidade, ao vanguardismo autoritário. Ele usa esses conceitos para criticar Lula, o PT, e a esquerda brasileira em geral. Ele é, portanto, um homem que conhece o diagnóstico da doença que o aflige e, conhecendo-o, não consegue se curar dela.

Isso não é hipocrisia simples — hipocrisia seria fácil demais e, em certo sentido, menos interessante. Isso é algo mais profundo e mais perturbador: é a demonstração de que certas estruturas organizacionais têm uma lógica própria que se impõe sobre as intenções conscientes daqueles que as adotam. Lenin não acordou uma manhã e decidiu “vou criar uma ditadura”. Ele construiu uma organização segundo princípios que ele considerava racionais e necessários, e essa organização produziu resultados que transcenderam e deformaram suas intenções originais.

Não estamos sugerindo que Renan Santos conduzirá o Brasil a um gulag. A diferença de contexto histórico, de escala e de consequências é fundamental e não pode ser trivializada. Estamos sugerindo, com seriedade filosófica, que os princípios organizacionais que ele adotou têm uma tendência estrutural documentada, e que a ironia de um liberal adotando esses princípios é mais do que uma curiosidade intelectual — é um sinal de alerta genuíno.


Parte VII: Os Dados e o Futuro — O Que a Ciência Política Diz

A análise filosófica ganha peso quando combinada com os dados empíricos disponíveis sobre o desempenho do Missão e a trajetória de Renan Santos no cenário político brasileiro.

7.1 O Paradoxo da Geração Z

Os dados são simultaneamente promissores e reveladores. Nas pesquisas de 2025-2026, Renan Santos aparece com cerca de 1% a 2% das intenções de voto na população geral para a presidência — números que o colocam no território do “candidato de nicho” por excelência. Mas entre a Geração Z, o mesmo Renan apareceu com impressionantes 18,6% em algumas pesquisas, ficando em segundo lugar apenas após Lula.

Essa dicotomia é fascinante do ponto de vista da ciência política. O que explica a atração específica dos jovens pelo projeto vanguardista de Renan? Algumas hipóteses merecem consideração.

Primeira hipótese: os jovens, especialmente os com alguma formação universitária ou interesse em aprofundamento político, são exatamente o público mais receptivo ao argumento vanguardista. A mensagem implícita de Renan — “você é mais inteligente do que o eleitor médio, você faz parte da elite intelectual que vai mudar o país” — é enormemente sedutora para jovens que se sentem frustrados com a “baixa qualidade” do debate político e querem se sentir parte de algo mais sofisticado e significativo do que o bolsonarismo ou o petismo.

Segunda hipótese: o formato da comunicação de Renan — lives longas, densas, cheias de referências a autores e conceitos — funciona como marcador de status intelectual nas redes. Consumir Renan Santos sinaliza que você é “sério” sobre política, diferente dos que consomem apenas clipes de Nikolas ou memes do PT. Há uma dimensão de identidade e pertencimento que é independente do conteúdo.

Terceira hipótese: a Geração Z, formada integralmente na era das redes sociais, tem uma relação com a autoridade intelectual que combina desconfiança das instituições tradicionais com hipersuscetibilidade a novos “especialistas” encontrados online. Renan representa esse novo especialista: alguém fora do sistema, que fala a língua da internet, mas que tem “conteúdo” e “método”.

A ironia aqui é que essa base jovem e sofisticada — que seria teoricamente a mais capaz de identificar o vanguardismo leninista no modelo de Renan — é exatamente a que menos o percebe, porque está demasiado engajada na narrativa de “seriedade intelectual” que o projeto vende.

7.2 As Eleições Municipais e o Modelo de Crescimento

O desempenho nas eleições municipais de 2024 oferece dados concretos sobre a trajetória do Missão. Quatorze vereadores eleitos em cidades estratégicas, incluindo capitais como São Paulo, Natal, Salvador, Curitiba e Rio de Janeiro, representam um crescimento real, metodicamente construído.

A estratégia de Renan para 2026 é claramente a de usar a candidatura presidencial como plataforma de visibilidade para o partido, enquanto o objetivo real é a construção de uma bancada federal que supere a cláusula de barreira. Se o Missão conseguir eleger um número suficiente de deputados em estados suficientemente distribuídos, ele ganha acesso ao fundo eleitoral e ao tempo de televisão que são necessários para a próxima fase de crescimento.

É, novamente, uma estratégia de longo prazo. E é uma estratégia tipicamente leninista: não a conquista do poder imediata pela via eleitoral, mas a construção paciente da infraestrutura organizacional que tornará possível a conquista do poder em um momento histórico mais favorável. Lenin não esperava que os bolcheviques vencessem eleições — ele construiu um partido capaz de agir de forma decisiva quando a crise do sistema criasse a abertura necessária.

Não afirmamos que Renan Santos está planejando uma revolução. Afirmamos que a lógica de construção organizacional que ele pratica é análoga.

7.3 Os Limites do Projeto

A ciência política também identifica os limites estruturais do projeto Missão que são diretamente relacionados ao seu modelo vanguardista.

O primeiro limite é a dificuldade de escala. Um partido de quadros intelectuais, que exige formação específica e adesão doutrinária, tem por definição um teto de crescimento mais baixo do que partidos populistas de base emocional. Você pode formar centenas de candidatos na Academia MBL por ano; não é possível “educar” um eleitorado de dezenas de milhões de pessoas para o nível de sofisticação que o projeto pressupõe.

O segundo limite é a dependência da liderança carismática. Toda organização vanguardista é estruturalmente dependente da figura central que detém a “verdade” do método. Se Renan Santos sair de cena — por motivos políticos, pessoais ou legais — o que resta? Um partido com um Livro Amarelo e sem o leitor autoritário que decide o que ele significa em cada situação concreta. O leninismo morreu com Lenin no sentido mais preciso: o partido bolchevique sobreviveu, mas transformou-se em leninismo como ritual de homenagem, não como prática intelectual viva.

O terceiro limite é a contradição performática. Renan foi condenado a indenizar a filósofa Djamila Ribeiro por ofensas cometidas durante debates públicos. Essa condenação — independentemente de qualquer julgamento sobre o mérito específico do caso — exemplifica de forma cristalina a contradição entre a autoproclamada superioridade intelectual e o comportamento real. O candidato que pretende elevar o nível do debate político é condenado por rebaixá-lo. O líder que critica o “baixo nível” da política nacional produz baixo nível quando contrariado.


Parte VIII: O Que a Filosofia Política Recomenda

Chegamos, finalmente, à dimensão prescritiva deste ensaio. Depois de dissecar o vanguardismo de Renan Santos, identificar seus paralelos leninistas e maostas, e mapear as ironias que esses paralelos produzem em um contexto de direita liberal, o que a filosofia política tem a oferecer como alternativa ou como crítica construtiva?

8.1 A Necessidade de Humildade Epistemológica

O problema fundamental do vanguardismo — seja de esquerda ou de direita — é a pretensão de certeza. A vanguarda sabe o que o povo não sabe; o método do partido é superior ao senso comum das massas; o Livro Amarelo contém a verdade sobre o que o Brasil precisa fazer.

A tradição filosófica liberal — a tradição que Renan diz defender — é, em seu núcleo, profundamente cética sobre essa pretensão de certeza. John Stuart Mill argumentou que a diversidade de opiniões não era apenas tolerável mas necessária, porque nenhum ser humano ou grupo humano tem acesso privilegiado à verdade em questões complexas de organização social. Karl Popper fundou sua teoria da sociedade aberta precisamente na ideia de que a política democrática deve funcionar como a ciência: por tentativa e erro, testando hipóteses, aprendendo com os fracassos, sem jamais declarar que o sistema foi perfeiçoado ou que a verdade foi encontrada.

Um partido liberal que funciona como repositório de uma verdade política estabelecida, testável apenas pela conformidade com o Livro Amarelo, não é um partido liberal. É um partido que se apropriou da linguagem liberal para um projeto organizacional profundamente contrário ao espírito liberal.

8.2 A Democracia como Processo, não como Destino

Há uma tensão profunda em qualquer projeto político que se proponha a “salvar a democracia” através de meios antidemocráticos, ou a “elevar o nível do debate” através de mecanismos que suprimem a diversidade de vozes. Essa tensão não é nova — Robespierre justificou o Terror como necessário para estabelecer a República Virtuosa, e Lenin justificou a ditadura do proletariado como fase transitória para o comunismo sem Estado.

O que a experiência histórica demonstra, com uma monotonia impressionante, é que os meios importam. Não apenas instrumentalmente, como ferramentas que devem ser adequadas aos fins, mas intrinsecamente, como parte constitutiva do resultado. Uma democracia construída por métodos autoritários não é uma democracia que temporariamente usou métodos autoritários — é uma democracia que incorporou o autoritarismo em sua estrutura constitutiva.

Renan Santos pode estar absolutamente certo sobre as políticas do Livro Amarelo — sobre reforma tributária, sobre segurança pública, sobre educação. Pode estar certo e ser ao mesmo tempo um projeto filosófico profundamente problemático para a democracia brasileira, não pelos valores que defende, mas pelos instrumentos que usa para defendê-los.

8.3 A Questão da Longa Duração

A história nos oferece um consolo relativo e ao mesmo tempo uma advertência. Os movimentos vanguardistas tendem a ter trajetórias específicas: crescimento rápido e eficiente nos períodos de crise de legitimidade do sistema estabelecido, seguido de estagnação quando o sistema se estabiliza ou quando o líder carismático se fragiliza, seguido de fragmentação quando a contradição entre o projeto intelectual e a prática organizacional se torna insustentável.

O MBL já passou pela fase de crescimento: foi o movimento que ajudou a derrubar Dilma e que formou uma geração de ativistas políticos de direita. Está agora na fase de institucionalização — com o Partido Missão, a Academia, o Livro Amarelo. O que virá depois dependerá de fatores que a análise presente não pode prever com certeza, mas que a teoria política permite antecipar: a tensão entre o vanguardismo e a democracia interna se tornará crescentemente difícil de gerir à medida que o partido cresce e incorpora membros menos homogêneos ideologicamente.


Epílogo: O Monstro no Claro-Escuro

Retornamos a Gramsci com quem abrimos este ensaio. “O velho mundo está morrendo e o novo mundo tarda a aparecer; nesse claro-escuro, surgem os monstros.”

Renan Santos não é um monstro. É, ao contrário, um homem inteligente, articulado, com diagnósticos frequentemente corretos sobre os problemas reais da política brasileira. A ironia que este ensaio documenta não é uma acusação moral — é uma observação analítica sobre o peso que a estrutura organizacional exerce sobre as intenções individuais.

A piada que a história conta, através de Renan Santos, é a mesma que já contou através de tantos outros: que é extraordinariamente difícil escapar dos modelos que se aprende a reconhecer como eficazes. Lenin era eficaz. Mao era, em termos de tomada e manutenção do poder, incrivelmente eficaz. E Renan Santos, ao estudar a política com a seriedade que ele reivindica, aprendeu as lições que a história oferece sobre eficácia organizacional — sem perceber, ou sem querer perceber, que estava aprendendo as lições do adversário.

Há uma frase, atribuída a vários filósofos mas frequentemente associada a Nietzsche, que serve como epitáfio perfeito para esta análise: “Quem luta contra monstros deve cuidar para não se tornar um monstro. E quando olhares por muito tempo para um abismo, o abismo olhará de volta para ti.”

O abismo, no caso de Renan Santos, é o leninismo. E há muito tempo que ele olha.


Notas Teóricas e Conceitos-Chave

Vanguardismo: Teoria política segundo a qual uma elite intelectual deve guiar as massas em direção a objetivos que elas próprias não alcançariam espontaneamente. Sistematizado por Lenin em “Que Fazer?” (1902), mas presente em diversas correntes políticas do século XX.

Centralismo Democrático: Princípio organizacional bolchevique que combina debate interno livre com obediência pública incondicional às decisões da direção.

Estetização da Política: Conceito de Walter Benjamin que descreve a substituição do debate político substantivo pela encenação simbólica e emocional, característica dos movimentos fascistas dos anos 1930.

Paradoxo da Liberdade Autoritária: Conceito introduzido neste ensaio para descrever a contradição entre a defesa de valores liberais e o uso de instrumentos organizacionais autoritários para defendê-los.

Interregno Gramsciano: Período histórico de transição em que o velho sistema de legitimidade entrou em colapso mas o novo ainda não emergiu, criando espaço para figuras e movimentos que capitalizam sobre a crise sem oferecer soluções estruturais genuínas.

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