Philomathēs Matheus Soranço

A Possibilidade da Razão como Caminho até Deus: Uma Defesa Filosófica da Lógica como Atributo Divino

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Tipo
Ensaio
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Idioma
pt-BR

A existência de Deus sempre foi um dos maiores problemas filosóficos enfrentados pela humanidade. Desde os pré-socráticos até os pensadores contemporâneos, o debate tem oscilado entre a fé e a razão, entre a revelação e a inferência lógica. O presente ensaio propõe uma síntese possível: se Deus existe e é como o descrevem as religiões abraâmicas — um ser perfeito, bom, racional e criador —, então a razão humana, sendo imagem imperfeita de sua razão infinita, deve ser capaz de encontrá-Lo. Nega-se, assim, a falsa dicotomia entre fé e razão, reafirmando a possibilidade de conhecer Deus racionalmente, sem comprometer o livre-arbítrio, a perfeição divina ou a integridade da lógica.

Antes de entrarmos no argumento, quero colocar uma posição de sustentação contra qualquer argumento de crença absoluta por fé ou a impossibilidade de crença por fé em prova. Uma vez que se acredita na existência de Deus e, como de fato observado em religiões, é feita a posição positiva de conhecimento sobre atributos, atitudes e moral objetiva, faz-se necessário que determinadas perguntas sejam respondidas. O problema não está na fé, mas na asserção positiva de conhecimento como crença. Caso se afirme a crença em Deus e é formalizada e reforçada uma conduta de vida de acordo com escrituras que seriam derivadas de Deus ou a imposição de uma forma de vida de acordo com a vontade Dele, está afirmando o conhecimento íntimo da natureza e forma de “Pensar” (Seja lá o que isso signifique neste âmbito metafisico) de Deus! Portanto, quando um outro individuo questiona a natureza de afirmações como onipotência com questões clássicas como “Deus pode criar uma pedra tão pesada que ele não pode levantá-la?” ou “Deus pode criar um círculo quadrado?”, estas devem ser respondidas por aquele que faz a asserção positiva. Caso contrário, não seria razoável a fé absoluta que este possui, visto que as contradições internas seriam tamanhas para afirmar qualquer tipo de conhecimento em relação a Deus.

Aqui, não estou questionando a fé para com posições naturais ou sobrenaturais como milagres ou dogmas específicos e dogmáticos de cada religião abraâmica, apenas a descrição de Deus de forma antropomórfica. Também não quero, e jamais faria isso, descreditar a experiência pessoal de cada um. A experiência religiosa é uma forte forma de moldar um indivíduo e normalmente, esta lhe é muito cara.

Religiões são fenômenos complexos e que perfuram a história, não tenho a intenção de descreditar, creditar ou resumir esses fenômenos.

Vamos a proposição.

Partindo do pressuposto das religiões abraâmicas de que toda a humanidade foi feita a partir da imagem de Deus, que Deus é perfeito e bom e que somos a imagem imperfeita de Deus, que Deus quer ser conhecido, podemos argumentar por:

1-Somos a imagem imperfeita de um Deus perfeito e bom

2-Se Deus é bom, ele quer o nosso bem.

3-Se somos a imagem imperfeita de Deus, possuímos as características imperfeitas de Deus, que possui todas essas características de forma absoluta.

4-A humanidade possui razão, dada essa ser uma forma de livre-arbítrio.

5-Portanto, Deus deve possuir razão de forma perfeita, já que somos a imagem imperfeita dele, ele deve possuir o atributo da razão, pois seria impossível Deus não possuir algo que a humanidade possui por virtude dele.

6-Se a razão é um atributo de Deus, Ele deve pertencer a ordem da razão e da Lógica, portanto, ele é onipotente, onipresente e onisciente dentro da ordem sobrenatural da lógica.

7-Se Deus possui esse atributo e nós também, podemos alcançar a noção da existência de Deus por meio da razão e da lógica, buscando este atributo de Deus. Isso deve ser possível visto que somos a imagem imperfeita de Deus.

8-Se não podemos alcançar a existência de Deus por meio de um atributo Dele mesmo, não podemos provar a existência de Deus por nenhum meio.

9-Portanto, argumentos que apelam para a lógica de existência de Deus, por exemplo, Ajuste fino do Universo, Proposito da criação e irredutibilidade da existência, não são válidos.

10-Não podemos inferir a existência de Deus, assim como não existe forma perfeita que Deus possa se revelar para nossas imperfeições.

11-Portanto, uma das opções é verdadeira:

    11.1-Deus não quer ser encontrado.

    11.2-Deus não se importa em ser encontrado ou com a criação.

    11.3-Deus não existe, por isso não pode ser encontrado.

12-Qualquer reposta a estes quebram as leis da perfeição de Deus ou sua bondade.

Este argumento não veio sem críticas, feitas por mim mesmo e por outros: Premissas iniciais:

Partindo dos pressupostos das religiões abraâmicas:

  • Que Deus é perfeito e bom.
  • Que somos sua imagem imperfeita.
  • Que Deus deseja ser conhecido.

1–5. Imagem de Deus, razão e perfeição

Construo uma linha de raciocínio: se Deus nos criou à sua imagem, e temos razão, então Deus deve ter razão de modo perfeito.

6. Deus pertence à ordem da lógica

Afirmo que Deus opera na ordem da lógica, o que é uma questão filosófica complexa. Isso levanta um ponto clássico:

Deus está submisso à lógica (isto é, Ele não pode contradizer a lógica), ou Deus transcende a lógica, e pode violá-la?

A tradição tomista afirmaria que a lógica emana de Deus — ela não é um limite sobre Ele, mas uma expressão da Sua própria natureza. Assim, Ele não contradiz a lógica, mas não está “preso” a ela como algo externo.

7–8. Acesso à existência de Deus pela razão

Se temos razão por sermos imagens de Deus, e Deus quer ser conhecido, então devemos poder conhecer Deus pela razão. Caso contrário, isso entraria em contradição com Sua perfeição ou bondade. Este é o ponto mais delicado. Ele pressupõe que um ser perfeito e bom deve necessariamente tornar-se cognoscível por meios racionais a seres imperfeitos — o que não é uma implicação obrigatória. Pode haver razões morais, epistemológicas ou ontológicas para ocultar-se parcialmente (como defendido por Kierkegaard ou Pascal).

9–10. Recusa dos argumentos cosmológicos ou teleológicos

Argumentos como o do ajuste fino ou da criação com propósito não são válidos porque não levam a uma prova lógica real da existência de Deus. Aqui há uma tensão. Se descartamos:

  • a experiência (empirismo),
  • a fé (revelação),
  • os argumentos teleológicos/cosmológicos (indutivos), então restaria apenas a lógica a priori pura, o que é uma exigência alta demais. Poucos sistemas (como o ontológico de Anselmo ou Gödel) tentaram isso.

11–12. Trilema: Deus não quer ser conhecido, não se importa ou não existe

Conclui-se que, se não conseguimos alcançá-Lo pela razão, e se Ele é bom e quer ser conhecido, então:

  • ou Ele não quer ser conhecido,
  • ou não se importa,
  • ou não existe.

E qualquer uma dessas contradiz a perfeição e bondade absolutas. Esse trilema ecoa o problema do mal, mas aplicado à epistemologia divina:

Por que um Deus bom e perfeito permitiria que sua existência fosse incognoscível?

A teologia responde com conceitos como:

  • Fé como virtude necessária, que exige espaço para dúvida.
  • Livre-arbítrio intelectual, que requer ausência de certeza absoluta.
  • Humildade epistêmica humana: a razão imperfeita pode não alcançar a perfeição, mesmo refletindo-a.

Pontos a contestar:

  1. Premissa 6 (Deus subordinado à lógica) pode ser contestada por visões mais apofáticas ou místicas.
  2. Premissa 8 é rígida: Deus pode escolher não ser plenamente acessível pela razão por motivos mais altos (liberdade humana, humildade, etc.).
  3. O argumento assume que a única forma válida de prova é a lógica pura, ignorando que muitos epistemólogos aceitam conjuntos de evidência (experiência, coerência, testemunho).

Dado minhas repostas sendo: 1-A liberdade humana não é retirada da equação. Se uma pessoa ESCOLHE encontrar Deus, deve haver uma forma de ser feita. Caso contrário, ele estaria obrigada a fé, contrariando o livre-arbítrio.

2-Se podemos encontrar Deus pela fé, o livre-arbítrio diz que podemos encontrá-lo pela lógica também. Porque a fé seria preferível? Ela requer um salto cego de crença.

3-Os conjuntos de evidência não ferem a proposta. Eles servem como ponto de partida para a inferência da existência de Deus.

4- A lógica não é a única forma de prova. Mas serve também.

5-Deus não necessariamente está preso as leis da lógica. Mesmo que esta emane dele, seria um atributo de Deus, portanto pode ser usada para alcançá-lo.

6- Se Deus é perfeito, portanto a lógica que emana dele não deve ser imperfeita como a que utilizamos e a qual pode ser aplicado os postulados de Gödel. Ela deve ser necessariamente Autoconsistente e completa.

7-A fé como virtude necessária é uma questão complexa. Ela como espaço para dúvida é absolutamente válida, necessária e até intrínseca. Agora, ela deixa de ser uma virtude no momento em que o questionamento é coibido e se torna cega. Ela então deixa de ser razoável. Portanto, o questionamento faz parte da própria natureza deste argumento e a fé pode ser um motivador deste.

😯 livre-arbítrio intelectual cai no mesmo espaço da resposta 7. O argumento não propõe uma certeza absoluta, mas um caminho válido para a busca além da fé.

9-A lógica imperfeita pode não alcançar a perfeição por uma questão de humildade epistêmica, mas então ela pode alcançar esta própria afirmação como fim.

O problema da existência de Deus está entre os mais persistentes da história do pensamento humano. Embora muitas abordagens tenham sido propostas, a tensão entre fé e razão continua presente: pode-se conhecer Deus por meio da razão, ou apenas pela fé? Este artigo defende que a razão é um caminho legítimo para o conhecimento de Deus. Segundo Santo Agostinho, “crer para compreender e compreender para crer” (crede ut intelligas, intellige ut credas) é a base do entendimento cristão da relação entre fé e razão. Tomás de Aquino, por sua vez, argumenta na Suma Teológica (ST I, q.2, a.2) que a razão pode nos conduzir ao conhecimento da existência de Deus através de cinco vias. Kant, embora crítico de algumas provas ontológicas, reconhecia que a ideia de Deus é uma “ideia reguladora da razão pura” (Crítica da Razão Pura).

Silogismo Formal da Existência Racional de Deus

(Uma defesa da via lógica como caminho legítimo e necessário para se alcançar Deus, segundo os atributos da tradição abraâmica)

PREMISSAS FUNDAMENTAIS

P1. Deus, segundo as religiões abraâmicas, é um ser perfeito, bom, onisciente, onipotente e criador. P2. O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:27). P3. Ser à imagem de Deus implica que o ser humano possui, em forma imperfeita, atributos que em Deus existem em forma perfeita. P4. Um dos atributos humanos é a razão (capacidade de abstração lógica, inferência, julgamento e busca por verdade). P5. Logo, Deus também possui razão — em forma perfeita, absoluta e não limitada.

PREMISSAS SOBRE A LÓGICA COMO CAMINHO

P6. Se Deus possui razão perfeita, Ele age segundo uma ordem racional, mesmo que transcendente. P7. O atributo da razão em nós, ainda que limitado, é reflexo da razão divina. P8. Sendo reflexo, a razão humana pode — mesmo que imperfeitamente — se orientar na direção de Deus. P9. Negar que a razão pode nos guiar a Deus implicaria em uma falha na imagem que temos Dele.

PREMISSAS SOBRE O LIVRE-ARBÍTRIO E A REVELAÇÃO

P10. Deus é bom (P1) e, portanto, quer o bem do ser humano. P11. Conhecer Deus é um bem supremo, pois Ele é o fundamento de todo o bem. P12. Se Deus é bom e quer ser conhecido, deve haver caminhos legítimos para que o ser humano O encontre. P13. A fé é um desses caminhos, mas depende de um “salto” que pode ser irracional. P14. Se a fé fosse o único caminho, o dom da razão seria inútil ou secundário — o que contradiria P4 e P10. P15. Portanto, deve ser possível conhecer Deus também pela razão.

INFERÊNCIAS E IMPLICAÇÕES

P16. Se é possível conhecer Deus pela razão, então deve ser possível construir argumentos válidos que apontem à Sua existência ou natureza. P17. Se não for possível conhecê-Lo pela razão, então ou:

  • (a) Deus não quer ser conhecido (contraria P10),
  • (b) Deus não pode ser conhecido (contraria P1 e P10),
  • (c) Deus não existe (negando todas as premissas anteriores). P18. Todas as alternativas acima entram em contradição com os atributos clássicos de Deus.

CONCLUSÃO FINAL

C. Logo, se Deus existe e é como descrito pelas religiões abraâmicas (perfeito, bom e racional), então deve ser possível alcançá-Lo pela razão — e negar isso é negar o próprio Deus como fundamento da lógica e da liberdade humana.

 Observação Metafísica Final:

Se Deus existe e a lógica é um reflexo Dele, então a lógica é um caminho sagrado — e os argumentos racionais não são apenas ferramentas humanas, mas ecos da razão divina em nós.

| Símbolo   | Significado                      |

| ——— | ——————————– |

| `D(x)`    | x é Deus                         |

| `P(x)`    | x é perfeito                     |

| `B(x)`    | x é bom                          |

| `R(x)`    | x é racional (possui razão)      |

| `I(x, y)` | x é imagem de y                  |

| `H(x)`    | x é um ser humano                |

| `C(x, y)` | x pode conhecer y                |

| `F(x)`    | x tem fé                         |

| `L(x)`    | x usa lógica/razão para conhecer |

| `Q(x, y)` | x quer que y o conheça           |

| `S(x)`    | x existe                         |

| `E(x)`    | x é um ente existente            |

Premissas Lógicas

    D(d)

     → Deus existe.

    P(d) ∧ B(d) ∧ R(d)

     → Deus é perfeito, bom e racional.

    ∀x [H(x) → ∃y (D(y) ∧ I(x, y))]

     → Todo ser humano é imagem de Deus.

    ∀x [H(x) → R(x)]

     → Todo ser humano possui razão.

    ∀x ∀y [(I(x, y) ∧ R(x)) → R(y)]

     → Se x é imagem de y, e x possui razão, então y também possui razão.

    R(d)

     → Logo, Deus possui razão (derivado das anteriores).

    ∀x [R(x) ∧ H(x) → ∃y (D(y) ∧ C(x, y))]

     → Se um ser humano possui razão, então pode conhecer Deus.

    ∀x [D(x) → Q(x, H)]

     → Deus deseja ser conhecido pelos humanos.

    ∀x [Q(x, y) ∧ P(x) ∧ B(x) → ∃z (C(y, x) ∧ (F(y) ∨ L(y)))]

     → Se Deus é perfeito e bom, e deseja ser conhecido, então deve ser possível conhecê-Lo por fé ou razão.

    ¬∃x C(x, d) → ¬D(d) ∨ ¬P(d) ∨ ¬B(d)`

     → Se ninguém pode conhecer Deus, então ou Ele não existe, ou não é perfeito, ou não é bom.

Conclusão Lógica

∃x (H(x) ∧ L(x) ∧ C(x, d))

→ Existe ao menos um ser humano que pode conhecer Deus pela lógica.


Referências

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1999.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Luiz João Baraúna. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2001.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução de Valerio Rohden e Ubirajara Ribeiro. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. Tradução de Gabriele Greggersen. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2007.

PASCHAL, Blaise. Pensamentos. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. São Paulo: Vozes, 2015. (Título original: Sygdommen til Døden)

PLANTINGA, Alvin. Deus, Liberdade e o Mal. Tradução de Edvino Borkenhagen. São Paulo: Vida Nova, 2014.

SWINBURNE, Richard. The Existence of God. 2. ed. Oxford: Clarendon Press, 2004.

SCHELLENBERG, J. L. Divine Hiddenness and Human Reason. Ithaca: Cornell University Press, 1993.

WEIL, Simone. A gravidade e a graça. Tradução de José Carlos Gonzalez. São Paulo: Edições Loyola, 1993.

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