Philomathēs Matheus Soranço

Sobre David Foster Wallace, Capitalismo e Depressão

Publicado em
Atualizado
Tipo
Ensaio
Leitura
4 min de leitura
Idioma
pt-BR

Descobri David Foster Wallace por causa de um discurso: This Is Water, que ele deu em 2005 para os formandos do Kenyon College. Tem muita coisa sobre ele que eu gostaria de escrever, mas isso fica para outro dia. Aqui eu quero falar de um assunto só: depressão.

Wallace conviveu com depressão grave durante boa parte da vida. Antes de Infinite Jest, o romance de 1996 que o fez famoso, ele já tinha passado por internações ligadas ao alcoolismo, às drogas e à própria depressão. O livro trouxe a fama, a aclamação da crítica e, por todos os relatos, o que parecia uma carreira de sucesso. Mesmo assim, escrever ficou difícil para ele depois disso e, depois de entrar e sair da medicação antidepressiva, ele se suicidou em 2008.

No discurso, ele comenta aquela frase de que a mente é uma ótima serva, mas uma péssima patroa. Wallace reconhece que é um clichê, e diz que, como muitos clichês, ele esconde uma verdade enorme: a batalha de uma vida é, no fundo, aprender a mandar na própria cabeça.

A maioria de nós passa a vida correndo atrás de coisas materiais, de sucesso profissional, de qualquer coisa que nos entregue aquela felicidade meio mística que prometeram que viria junto. Agora pense em quantas pessoas você consegue imaginar que chegaram a todos esses lugares e mesmo assim acabaram sozinhas, deprimidas e, no limite, mortas pelas próprias mãos. É disso que eu mais tenho medo. Como alguém tão bem-sucedido e tão admirado como Wallace pode ter sido infeliz? O que me assusta é a conclusão: nada garante que estejamos a salvo da nossa própria cabeça. Por mais que a gente alimente o ego com conquistas, ele continua sendo um castelo de cartas, com cara de estrutura, mas frágil.

Me parece que a nossa mente se importa pouco com o que já conquistamos para decidir se estamos felizes. Ela se importa com o processo em que estamos agora. É uma ideia que lembra, de longe, o conceito de fluxo do psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi: a vida boa seria mais uma luta em andamento do que uma coleção de troféus. Pense num surfista. Ele não é mais feliz fora da onda, e sim dentro dela, no meio do caos e da ordem de tentar fazer alguma coisa sem saber se vai ser derrubado ou chegar até a praia.

A cultura e a mídia nos contam outra história: compre esse produto e você será feliz, compre essa bebida e você será feliz. A felicidade vira um ponto de chegada, um destino. Eu acho que isso não poderia estar mais longe da verdade.

A ideia central de This Is Water é que o trabalho de uma vida inteira é cultivar a consciência de que o poder real que temos é o de escolher como interpretar o que acontece. Wallace usa exemplos banais, como a fila do supermercado e o trânsito. Duas leituras são possíveis para a mesma cena: uma nos enche de estresse, a outra nos dá empatia e compreensão. Então por que a gente cai quase sempre na primeira? Segundo ele, é por causa da nossa configuração padrão, que é ser profundamente e literalmente egocêntrico, se ver no centro de tudo e interpretar cada pessoa como alguém que está no nosso caminho.

Me parece que isso conversa diretamente com a depressão. Quem está deprimido costuma ver tudo pelo próprio ponto de vista, e isso alimenta raiva e frustração consigo mesmo, o que aprofunda ainda mais a desesperança.

Em Infinite Jest, Wallace descreveu isso com uma força enorme. A pessoa que tenta se matar, diz ele, não faz isso por desesperança nem por uma convicção abstrata de que as contas da vida não fecham, e certamente não porque a morte de repente pareça atraente. Faz porque a agonia invisível chegou a um nível insuportável, do mesmo jeito que alguém preso num prédio em chamas acaba pulando de uma janela alta. É uma descrição assustadora e, acho eu, muito precisa.

Ao mesmo tempo, penso que essa imagem é justamente o tipo de resposta padrão contra a qual o próprio Wallace nos alertava. Quem está dentro do incêndio só enxerga a janela, mas existe outra forma de ler a cena. Existem saídas de emergência: exercício e alimentação ajudam muita gente. Só que a depressão muitas vezes é tão intensa que a pessoa nem consegue sair da cama, nem tem energia para tomar banho, quanto mais se exercitar. É aí que entram os bombeiros, na forma de médicos e terapeutas, que podem ajudar com medicação e com o tratamento das causas por trás da depressão. A leitura de Wallace era de que não havia saída: ou queimava, ou caía.

O que há de mais trágico nele é que ninguém estava mais consciente do que ele de como a mente funciona e de como o diálogo interno pode virar um pesadelo. Ele avisou contra o egocentrismo natural, falou da necessidade de fazer o trabalho de se livrar da configuração padrão, e mesmo armado com todo esse conhecimento não conseguiu se salvar.

Eu tiro disso uma lição incômoda: saber como a depressão funciona, ter as ferramentas e entender como combater as chamas não basta para calar o diálogo interno que pode atormentar uma pessoa. Para muita gente, é um trabalho difícil e contínuo de cuidar da dor, que não desaparece de uma vez, e que não se faz sozinho.

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