Philomathēs Matheus Soranço

A MESMA FARINHA

Publicado em
Atualizado
Tipo
Ensaio
Leitura
43 min de leitura
Idioma
pt-BR
Assinado como
Alexei Zhakev

PT, Nikolas Ferreira e a Política como Espetáculo:

Um Ensaio sobre o Populismo dos Dois Lados e a Erosão da Democracia Substantiva no Brasil

“Na democracia de massas, o político não precisa mais convencer — precisa emocionar.” — formulação minha, em diálogo com a ideia de contrademocracia de Pierre Rosanvallon

“O fascismo não vem como oposto da democracia. Vem como o seu exagero.” — formulação minha, em diálogo com os ensaios de Umberto Eco sobre fascismo

I. Introdução: O Espelho e a Ilusão

Existe um conforto perigoso em acreditar que o problema político do Brasil tem um rosto, uma sigla, um lado. Para quem está à esquerda do espectro, o problema chama-se Nikolas Ferreira — jovem, barulhento, habilidoso nas redes sociais, produtor de poucos projetos concretos e grande gerador de espetáculo e confronto. Para quem está à direita, o problema chama-se PT — sigla associada à corrupção sistêmica, ao assistencialismo eleitoreiro, a um líder que usa linguagem de boteco para governar um país de mais de 200 milhões de pessoas e que transforma cada ato de governo em peça de marketing emocional.

Ambos os lados estão certos. E ambos estão profundamente errados ao imaginar que a patologia pertence apenas ao outro.

Este ensaio parte de uma premissa incômoda: Nikolas Ferreira e o PT contemporâneo, especialmente na versão Lula 3.0, são expressões diferentes do mesmo fenômeno político — o que os cientistas políticos chamam de populismo de identidade, uma forma de exercício do poder público que substitui a gestão pela performance, a política pública pelo símbolo, o debate técnico pela guerra cultural. São, em essência, a mesma farinha. O que muda é o saco, o rótulo e os ingredientes da narrativa.

Para sustentar essa tese, este ensaio analisa as bases históricas do PT e sua transformação progressiva de partido programático em máquina de narrativa emocional; examina a ascensão de Nikolas Ferreira como fenômeno de mobilização digital sem contrapartida legislativa; identifica os mecanismos compartilhados de funcionamento de ambos — o duplo padrão, a guerra de vibes, a instrumentalização da identidade; e por fim reflete sobre as consequências desse modelo para a qualidade da democracia brasileira.

Não se trata de uma crítica que pretende equivalência moral absoluta — os dois fenômenos têm origens, histórias e bases sociais distintas, e é importante reconhecer isso sem, contudo, deixar que essa distinção sirva de blindagem para os vícios comuns. O argumento central é que o Brasil político de hoje funciona como um teatro de sombras: dois espetáculos diferentes, dois grupos de atores diferentes, uma única estrutura de palco.

II. O PT: Da Fábrica à Fabulação

2.1 As Origens e o DNA Programático

O Partido dos Trabalhadores nasceu em 1980 de uma confluência rara na história política brasileira: sindicalismo de base, teologia da libertação, movimentos de moradia urbana e intelectualidade de esquerda. Era uma novidade estrutural no cenário nacional, porque foi um dos poucos partidos no mundo que nasceu de baixo para cima — de assembleias de trabalhadores do ABC paulista, de comunidades eclesiais de base, de ocupações de sem-terra — e não de gabinetes ou de articulações de elites.

Esse DNA fundacional importa para entender o contraste com o que o partido viria a se tornar. Em suas primeiras décadas, o PT tinha um programa detalhado, uma militância exigente e uma cultura de debate interno vigorosa. As resoluções de congresso eram documentos técnicos densos. O partido discutia reforma agrária, política monetária, sistema tributário com uma seriedade que as bancadas de oposição raramente correspondiam. Havia, naquele PT, uma crença genuína de que a política devia ser conduzida por ideias, e que o eleitor, quando bem informado, escolheria a melhor proposta.

Havia também, evidentemente, a dimensão emocional — Lula sempre foi um comunicador extraordinário, capaz de transformar a experiência pessoal de pobreza em narrativa coletiva de resistência. Mas nos anos 1980 e início dos anos 1990, essa emoção era instrumentada a serviço de um programa, não o contrário. O slogan ‘Lula lá’ tinha um referente concreto: um conjunto de propostas sobre o que Lula faria ‘lá’, no poder.

2.2 A Transformação: Da Carta ao Poder

O ponto de inflexão que merece atenção analítica é 2002. A Carta ao Povo Brasileiro, publicada por Lula às vésperas da eleição que venceria, é frequentemente citada como o momento em que o PT fez concessões ao mercado para chegar ao poder. Essa leitura é parcialmente correta, mas incompleta. O que a Carta representou foi algo mais profundo: a subordinação do programa à estratégia eleitoral.

A virada de 2002 não foi apenas econômica — foi epistêmica. O PT aprendeu que para vencer eleições em um país com as dimensões socioeconômicas do Brasil não era necessário convencer o eleitor médio com argumentos técnicos. Era necessário convencê-lo emocionalmente. E nesse aspecto, o partido foi aprendendo progressivamente uma lição que a direita global aprenderia formalmente apenas com Trump, em 2016: em tempos de desconfiança das elites e das instituições, o que elege não é a proposta mais competente, mas a identidade mais poderosa.

Sob Lula, essa transformação avançou. Os governos Lula I e II (2003–2010) tinham contradição interna evidente: de um lado, políticas redistributivas concretas e mensuráveis — Bolsa Família, aumento real do salário mínimo, expansão do crédito, Prouni — que representavam resultado real para dezenas de milhões de brasileiros. De outro, uma narrativa política crescentemente personalista, que transformava conquistas coletivas em capital político pessoal, e que tratava o crescimento econômico (em grande parte favorecido por um ciclo global de commodities) como prova da superioridade ideológica petista.

O problema não estava nas políticas — muitas eram genuinamente eficazes — mas no modo como elas foram sendo envoltas numa aura mítica que dispensava o escrutínio técnico. O Bolsa Família deixou de ser um programa de transferência de renda com metas mensuráveis para se tornar um símbolo moral: quem criticasse qualquer aspecto de sua implementação era automaticamente classificado como ‘contra os pobres’. Essa blindagem narrativa seria um precursor direto da técnica que Nikolas utilizaria anos depois do outro lado do espectro.

2.3 A Crise, a Corrupção e a Reinvenção Emocional

O colapso do governo Dilma Rousseff entre 2013 e 2016, as revelações da Operação Lava Jato e a prisão de Lula em 2018 poderiam ter representado uma oportunidade de autocrítica profunda para o PT. Em alguns círculos intelectuais ligados ao partido, esse movimento ocorreu. Mas o PT institucional fez uma escolha diferente: transformou a crise em narrativa de martírio.

A prisão de Lula — que envolve questões legítimas sobre os excessos e irregularidades do processo judicial — foi transformada em mito fundador de uma segunda fase do lulopetismo. Na minha leitura, Lula preso tornou-se simbolicamente mais poderoso do que Lula livre havia sido. A incapacidade de autoavaliação honesta sobre os erros de gestão, sobre os esquemas de corrupção documentados e sobre o estilo de governo centralizado e compadrio foi substituída por uma narrativa de perseguição que tornava qualquer crítica equivalente a golpe ou a cumplicidade com a direita.

Esse movimento é o mais revelador do ponto de vista comparativo, porque é estruturalmente idêntico ao que Nikolas Ferreira faz toda vez que é condenado por alguma fala ou decisão disciplinar: transformar a punição em evidência de perseguição, e a perseguição em combustível de mobilização. O mecanismo é o mesmo. O roupagem é diferente.

No retorno ao poder em 2023, o Lula 3.0 aprofundou ainda mais a lógica da política como espetáculo emocional. O discurso de posse — visualmente poderoso, centrado nos símbolos da diversidade e da democracia — funcionou como um produto de marketing político de alta sofisticação. Os primeiros atos simbólicos de governo (subir a rampa do Palácio com representantes de grupos historicamente marginalizados, por exemplo) eram peças de comunicação antes de serem atos de governo.

Isso não significa que o governo Lula 3.0 não produza resultado prático — produz, em diferentes áreas, com distintos graus de eficiência. Mas a relação entre resultado e narrativa ficou completamente invertida: a narrativa passou a preceder o resultado, a moldá-lo, e muitas vezes a substituí-lo.

2.4 O PT e a Linguagem: Do ‘Homão não leva dedada’ ao Vocabulário de Trincheira

A frase atribuída a Lula em janeiro de 2026 — ‘homão não leva dedada’; não consegui confirmá-la em registro primário e a trato aqui como atribuição, a ser lida com cautela — em referência ao exame de toque prostático, seria o microcosmo perfeito da contradição petista contemporânea. Em princípio, a mensagem era de saúde pública: estimular os homens a fazerem o exame preventivo para câncer de próstata, que mata cerca de 16 mil brasileiros por ano, segundo dados do INCA.

O problema não é a intenção — é a linguagem, e o que ela revela sobre a relação do partido com seu próprio eleitorado. Ao usar um vocabulário que reforça o preconceito masculino (a noção de que o exame seria ‘diminuidor’ de masculinidade) para combater esse mesmo preconceito, Lula, se a frase for mesmo dele, teria revelado duas coisas: primeiro, que o PT tem uma relação ambígua e condescendente com os setores populares, frequentemente assumindo que eles só podem ser mobilizados pelo mesmo linguajar que os mantém na ignorância; segundo, que o próprio presidente sente à vontade para veicular estereótipos de gênero que qualquer petista condenaria prontamente na boca de um adversário.

Esse é o duplo padrão petista em ação: o partido que se apresenta como campeão da desconstrução de preconceitos e da linguagem inclusiva protege seu líder quando ele usa linguagem que, aplicada por qualquer político de direita, renderia nota de repúdio e chamado à renúncia. A militância justifica com o argumento da ‘língua do povo’ — o que é, em si mesmo, uma forma de paternalismo: a ideia de que o povo precisa ser falado em linguagem crua para se comunicar.

O paralelo com a base de Nikolas é preciso. Quando o deputado usa expressões chulas em plenário — e ele o faz regularmente, pedindo ‘desculpas pelo palavreado’ antes ou depois, o que é em si um ritual de autoperdão performático — seus seguidores celebram a ‘autenticidade’. Quando Lula faz o mesmo, eles veem ‘senilidade’ e ‘falta de postura’. E quando Nikolas usa termos agressivos, os petistas falam em ‘discurso de ódio’. Quando Lula ataca a direita com termos igualmente agressivos, os petistas falam em ‘combatividade necessária’.

A linguagem, portanto, não é um critério de análise para nenhum dos dois lados — é apenas uma arma seletiva.

III. Nikolas Ferreira: O Algoritmo com Mandato

3.1 A Ascensão: Como se Constrói um Fenômeno de Identidade

Nikolas Ferreira é um produto político que só pode ser compreendido dentro do ecossistema das redes sociais. Nascido em 1996, ele pertence à primeira geração de políticos brasileiros que não apenas usa as redes como ferramenta de comunicação, mas que pensa politicamente dentro da lógica das redes. Isso é uma diferença qualitativa, não apenas quantitativa.

Para entender o que isso significa, é preciso compreender a lógica de funcionamento dos algoritmos de engajamento que governam plataformas como Instagram, TikTok e YouTube. Esses algoritmos não distribuem conteúdo com base na qualidade, na profundidade ou na verdade do que é dito — distribuem com base na intensidade da reação que o conteúdo provoca. Conteúdo que gera raiva, medo, indignação ou entusiasmo extremo é amplificado exponencialmente. Conteúdo reflexivo, nuançado e tecnicamente complexo é algoritmicamente invisível.

Nikolas não ‘aprendeu’ a usar as redes sociais. Ele internalizou esse princípio fundamental e transformou sua carreira política em uma sequência de conteúdos projetados para maximizar o engajamento algorítmico. Cada discurso em plenário é filmado com enquadramentos específicos. Cada embate com adversários é editado em cortes curtos que começam no momento de máxima tensão. Cada piada ou deboche é calibrado para parecer espontâneo mas é construído para ser compartilhável.

O resultado mais mensurável dessa estratégia é que ele se tornou o deputado federal mais votado do país nas eleições de 2022, com mais de 1,4 milhão de votos em Minas Gerais. Isso é um número extraordinário — é mais do que a soma dos votos de muitas bancadas estaduais inteiras. E para os seus apoiadores, esse número é, em si, a prova de sua competência: um homem que consegue esse feito é inteligente, estratégico, capaz.

Mas há um problema metodológico nesse argumento. Votos não medem capacidade de governar — medem capacidade de ser eleito. São coisas relacionadas, mas não idênticas. O partido de Adolf Hitler foi o mais votado nas eleições parlamentares alemãs de julho de 1932. Hugo Chávez ganhou eleições repetidas vezes. A democracia não é apenas voto — é também o exercício responsável do mandato recebido.

3.2 O Deputado-Influenciador e a Renúncia à Legislação

A análise da produção legislativa de Nikolas Ferreira revela um dado que seus apoiadores raramente confrontam diretamente: em termos de projetos de lei aprovados, ele é um parlamentar de impacto mínimo. A explicação habitual — que a oposição cria barreiras estruturais, que o Centrão bloqueia suas pautas — tem algum fundamento empírico, mas é insuficiente como resposta completa.

A verdade mais desconfortável é que Nikolas não está tentando aprovar projetos de lei. Sua estratégia não inclui, como objetivo central, a produção de normas jurídicas que alterem a realidade do país. Quando ele apresenta um projeto sobre linguagem neutra nas escolas, não está propondo uma solução legislativa séria — está criando um conteúdo de campanha. A proposta serve como ponto de partida de um vídeo, não como instrumento de transformação da realidade.

Isso é politicamente honesto no sentido estrito: ele entrega ao seu eleitorado exatamente o que prometeu, que não era legislar mas confrontar. O problema é que o contrato implícito da democracia representativa não é apenas o confronto — é a construção. Um parlamentar é eleito para exercer o poder legislativo do Estado, não para produzir conteúdo de entretenimento político financiado pelo erário.

Aqui emerge uma distinção crítica que a análise da conversa-base deste ensaio toca com precisão: existe uma diferença entre o Legislativo como arena de debate — onde a retórica tem função legítima de convencer, pressionar e iluminar — e o Legislativo como estúdio de gravação. O primeiro é parte essencial da democracia. O segundo é a sua corrupção, no sentido etimológico: a degradação de algo que deveria ser uma coisa em outra.

Nikolas cruzou essa linha com consciência. E o fato de que ele cruza com competência técnica impressionante — a qualidade de produção dos seus vídeos, a velocidade de resposta às notícias, o domínio do timing cômico — não muda a natureza do que ele está fazendo. Ele está usando o mandato parlamentar, financiado pelo imposto público, como plataforma de produção de entretenimento político. O produto final não é a lei — é o vídeo.

3.3 A ‘Coragem’ como Produto de Consumo

Um dos elementos mais consistentes do discurso nikolariano é a palavra ‘coragem’. Ele tem coragem de dizer o que outros não dizem. Tem coragem de enfrentar o STF, o governo, as minorias, os comunistas. Tem coragem de falar o que o ‘brasileiro comum’ pensa mas não pode dizer.

Esse enquadramento é cuidadosamente construído e merece desmontagem analítica. A ‘coragem’ que ele performa não é a coragem de alguém que enfrenta consequências pesadas por suas posições. Um deputado federal com imunidade parlamentar, com uma base eleitoral de 1,4 milhão de votos, com acesso a plataformas com dezenas de milhões de seguidores, que faz declarações polêmicas sabendo que cada polêmica aumenta seu engajamento, não está arriscando nada — está calculando.

Coragem política real teria sido Nikolas articular com o Centrão, swallowing seu orgulho ideológico, para aprovar um projeto que beneficiasse concretamente seus eleitores em Minas Gerais. Isso exigiria negociação silenciosa, concessões invisíveis, e o resultado — uma lei aprovada, uma política implementada — não geraria nem um décimo do engajamento de um vídeo de três minutos onde ele debocha de um ministro do STF.

O PT tem seu equivalente funcional: a ‘resistência’. Quando o PT está no poder e comete erros de gestão, a narrativa é que eles estão ‘resistindo’ às forças do capital, à mídia hegemônica, ao imperialismo. Quando é punido por corrupção documentada, é porque ‘ousou desafiar o sistema’. A resistência, assim como a coragem, é um produto emocional que substitui a prestação de contas.

Ambos os partidos vendem ao seu eleitorado a sensação de pertencer a uma luta épica entre o bem e o mal — com a vantagem de que o eleitor nunca precisa verificar se o lado do bem está realmente ganhando alguma coisa concreta.

IV. Os Mecanismos Compartilhados: A Estrutura do Espetáculo

4.1 A Lógica do Nós Contra Eles

A análise política mais elementar do populismo contemporâneo — seja de direita ou de esquerda — identifica como sua pedra angular a construção de um ‘povo’ homogêneo e virtuoso em oposição a uma ‘elite’ ou ‘sistema’ corrupto e hostil. No caso do PT, esse antagonismo estruturou décadas de discurso: os trabalhadores versus as elites econômicas, os pobres versus os ricos, o Brasil real versus o Brasil formal. No caso de Nikolas Ferreira, o mesmo esquema opera com substituição de variáveis: os cristãos versus os comunistas, as famílias versus a ideologia de gênero, o Brasil patriótico versus o esquerdismo globalista.

A identidade do ‘povo’ muda. A estrutura do discurso é idêntica. E as implicações políticas desse isomorfismo são graves, porque qualquer discurso que divide o mundo em ‘nós virtuosos’ e ‘eles corruptos’ produz os mesmos efeitos independentemente de qual lado o utiliza: deslegitima o adversário como interlocutor; impossibilita o compromisso e a negociação (que passam a ser lidos como traição); e transforma a derrota política em perseguição moral.

Quando Lula perdeu eleições nos anos 1990, a narrativa petista era de que o sistema estava contra o povo. Quando Bolsonaro perdeu em 2022, a narrativa bolsonarista — com Nikolas entre seus mais vocais difusores — era de que o sistema estava contra o povo. A diferença é quem é o ‘povo’ e quem é o ‘sistema’. A estrutura narrativa é intercambiável.

Essa intercambialidade tem consequências práticas. O eleitor de PT que passou décadas ouvindo que qualquer vitória da oposição era golpe ou fraude aprendeu a rejeitar resultados eleitorais adversos como ilegítimos. O eleitor de Nikolas que ouve a mesma mensagem sobre o outro lado está sendo preparado para o mesmo comportamento. Ambos os processos minam o princípio fundamental da democracia: a aceitação do resultado eleitoral adverso como legítimo.

4.2 O Duplo Padrão como Tecnologia de Coesão

O ‘padrão duplo’ — a tendência de julgar o mesmo comportamento de forma oposta dependendo de quem o pratica — não é uma falha moral individual dos eleitores. É uma característica estrutural de qualquer comunidade política identitária, e tem raízes na psicologia cognitiva conhecida como viés de confirmação.

No contexto político brasileiro contemporâneo, esse duplo padrão opera com uma precisão que beiraria o mecânico, se não fosse também cultivado deliberadamente pelas lideranças. O PT, ao longo dos anos, desenvolveu toda uma gramática de proteção para Lula: suas gafes são ‘humanidade’, suas falas agressivas são ‘combatividade necessária’, seus erros de gestão são ‘herança maldita’, sua condenação judicial era ‘perseguição política’. A base aprendeu a operar com esses framing-kits prontos — não como resultado de análise independente, mas como produto de anos de comunicação partidária que pré-digeriu os eventos.

A base de Nikolas Ferreira opera de forma estruturalmente idêntica, com framing-kits espelhados: suas falas preconceituosas são ‘verdades que precisam ser ditas’, seu deboche é ‘autenticidade’, sua improdutividade legislativa é ‘pureza ideológica’, suas punições são ‘perseguição do sistema’. A sofisticação técnica com que esses enquadramentos são produzidos e distribuídos — através de canais de WhatsApp, grupos de Telegram, vídeos de YouTube — é notável e deliberada.

O efeito de longo prazo desse duplo padrão cultivado é a erosão da capacidade de raciocínio crítico independente dentro de ambas as comunidades. O eleitor que só aplica um critério de análise às ações do adversário e um critério diferente às ações do seu líder não está fazendo política — está praticando lealdade tribal. E a lealdade tribal, embora poderosa como mecanismo de coesão de grupo, é incompatível com a função primária do voto democrático: escolher quem governa melhor.

4.3 A Instrumentalização do Símbolo

Um dos mecanismos mais sofisticados compartilhados por ambos é o uso do símbolo como substituto da política pública. O PT foi pioneiro na transformação de símbolos pessoais em política — a história de Lula, filho da seca nordestina, migrante pobre que virou presidente, foi o mais poderoso ativo político do partido por três décadas. Não havia necessidade de detalhar a política tributária quando você podia mostrar a foto de Lula criança descalço e a foto do mesmo homem na cadeira presidencial.

Nikolas opera com a mesma lógica simbólica, mas com uma paleta diferente. O episódio da peruca na tribuna da Câmara no Dia Internacional da Mulher de 2023 é o melhor exemplo. Do ponto de vista legislativo, foi um evento de impacto zero — não aprovou nenhuma proposta, não modificou nenhuma lei, não afetou nenhuma política pública. Do ponto de vista simbólico, foi um evento de impacto enorme: gerou uma quantidade massiva de conteúdo, definiu claramente o antagonismo cultural (‘pauta de gênero vs. família tradicional’), mobilizou a base com uma intensidade que meses de discurso técnico não conseguiria igualar.

O PT usa símbolos de inclusão e resistência — a estrela vermelha, a bandeira com os trabalhadores, Lula com o boné dos sem-terra. Nikolas usa símbolos de confronto e provocação — a peruca, o crucifixo enfatizado, o tom agressivo em comissões. Mas ambos estão praticando a mesma forma de política: a substituição da substância pela representação da substância.

Isso tem uma consequência prática específica para o eleitor: ele passa a julgar a competência do político pela qualidade dos símbolos que ele produz, não pela qualidade das políticas que implementa. Um governo que constrói uma narrativa simbólica poderosa de inclusão mas falha em construir leitos de UTI em cidades periféricas está enganando seu eleitorado. Um parlamentar que produz símbolos poderosos de ‘combate ao sistema’ mas não produz leis que protejam as famílias que diz defender está fazendo o mesmo.

4.4 A Gestão da Crise como Combustível

Um dos aspectos menos discutidos mas mais importantes do populismo de identidade é sua relação com a crise. Para o político convencional, a crise é um problema a resolver. Para o populista de identidade — seja de esquerda ou de direita — a crise é um recurso político.

O PT desenvolveu ao longo de seus anos de oposição uma dependência profunda da crise econômica e social como combustível de mobilização. Na minha leitura, a oposição petista tendeu a tratar a crise como combustível: quanto piores as condições, mais forte a demanda por ruptura que o partido personificava — e não estou atribuindo a ninguém a declaração explícita de que desejava isso. Isso não é exclusividade do PT — é uma tendência estrutural de qualquer partido de oposição radical.

Nikolas Ferreira reproduz esse padrão com maestria. Cada crise de segurança pública é uma oportunidade de conteúdo. Cada falha de gestão do governo Lula é um episódio de série. Cada declaração polêmica de um ministro é uma deixa para um vídeo que vai a milhões. A crise não é problema a resolver — é matéria-prima de produção.

O resultado prático disso é que nenhum dos dois lados tem interesse real em uma resolução tranquila dos problemas brasileiros, porque a tranquilidade é algoritmicamente invisível e politicamente inútil. O Brasil que funciona regularmente, sem drama, não produz engajamento. Apenas o Brasil em chamas — ou apresentado como em chamas — mantém as bases mobilizadas e os cofres de campanha abastecidos.

V. As Diferenças Reais: Para Além da Equivalência Simplificada

A tese da equivalência entre PT e Nikolas Ferreira precisa ser matizada para não cometer o erro oposto ao que critica. Estabelecer que ambos operam com a mesma estrutura retórica e a mesma lógica de identidade política não significa dizer que suas diferenças são irrelevantes. Elas são reais e importantes.

Essas diferenças importam, e seria intelectualmente desonesto ignorá-las. Mas elas não invalidam a tese central deste ensaio — apenas a refinam. O ponto não é que PT e Nikolas são iguais em tudo. O ponto é que ambos operam, em crescente medida, com uma lógica política que subordina o resultado concreto à performance identitária. E que essa subordinação, independentemente de qual lado a pratica, prejudica a qualidade da democracia e da gestão pública.

VI. Por Que o Eleitor Aceita: A Psicologia do Pertencimento Político

6.1 O Colapso da Confiança Institucional

Para entender por que o eleitorado brasileiro — de esquerda e de direita — aceita e amplia políticos que entregam performance em vez de resultado, é preciso entender o contexto cognitivo e emocional em que esse eleitor vive.

O Brasil passou, entre 2013 e 2023, por uma sequência de crises que destruiu sistematicamente a confiança nas instituições. A Operação Lava Jato expôs um esquema de corrupção que envolveu políticos e empresários de vários partidos. O impeachment de Dilma Rousseff, conduzido por um Congresso que tinha em seus próprios quadros dezenas de réus em ações criminais, foi percebido por metade do país como golpe e pela outra metade como necessidade. O governo Bolsonaro normalizou a desinformação, o ataque às instituições e o negacionismo científico como práticas de governo. A pandemia de COVID-19 matou mais de 700.000 brasileiros, em parte, segundo diversas análises, por falhas graves de gestão (a CPI da Covid, no Senado, apontou responsabilidades do governo federal).

Esse é o humus em que crescem Lula e Nikolas. Um eleitor que não confia em nenhuma instituição, que viu décadas de gestão ‘técnica’ e ‘responsável’ produzirem corrupção e desigualdade, tem razões cognitivas e emocionais poderosas para preferir um líder que ‘pelo menos é honesto sobre o que é’ — mesmo que esse líder produza pouco resultado concreto.

O paradoxo político contemporâneo é que a transparência da inutilidade pode ser mais confortável do que a opacidade da utilidade. Um político que abertamente diz ‘estou aqui para confrontar o inimigo, não para fazer leis’ é, em certa medida, mais honesto sobre seu projeto do que um político que promete ‘resultado’ mas entrega clientelismo. E em um ambiente de colapso da confiança, a honestidade sobre a inutilidade pode ser preferida à desonestidade sobre a competência.

6.2 A Política como Identidade e Comunidade

A segunda raiz do fenômeno é de natureza antropológica. Humanos são animais sociais que precisam de pertencimento. Em sociedades tradicionais, o pertencimento era fornecido por família extensa, comunidade religiosa, clube esportivo local, sindicato de ofício. A modernização acelerada, a urbanização, a fragmentação das redes sociais presenciais e o avanço do individualismo de mercado destruíram progressivamente essas estruturas de pertencimento.

A política de identidade — seja de esquerda ou de direita — preenche esse vácuo. Ser petista ou ser seguidor de Nikolas não é apenas ter uma preferência eleitoral — é pertencer a uma comunidade, ter uma linguagem compartilhada, ter um inimigo comum que define as fronteiras do grupo, ter heróis e mártires. É uma função quase religiosa.

Essa função explica por que o duplo padrão é tão resistente ao argumento lógico. Quando você aponta a um petista que Lula usou a mesma ‘linguagem de boteco’ que ele critica em Nikolas, não está apresentando uma inconsistência lógica — está atacando o pertencimento tribal. A resposta natural não é concordar com o argumento mas defender o grupo, porque concordar implicaria trair a tribo.

O mesmo ocorre quando você aponta a um seguidor de Nikolas que o seu deputado ‘late mais do que morde’. A resposta não é examinar os projetos aprovados — é invocar a lógica de que o latido tem valor em si, que Nikolas está ‘resistindo’, que os outros deputados são ‘do sistema’. A resposta é sempre uma narrativa que reafirma o pertencimento, nunca uma análise que questiona o líder.

Essa estrutura é robusta e praticamente impermeável ao argumento factual isolado, o que explica por que ambos os lados frequentemente se decepcionam com a tentativa de ‘convencer’ o eleitor do outro lado com dados. Os dados não são o problema. O problema é que a política não está mais funcionando como sistema de escolha de gestores — está funcionando como sistema de identidade coletiva. E identidades não se mudam com estatísticas.

6.3 O Papel das Plataformas Digitais na Amplificação

As plataformas digitais não criaram o populismo de identidade — ele existia antes do Instagram e do TikTok. Mas elas o amplificaram com uma eficiência sem precedentes históricos. O mecanismo é bem compreendido tecnicamente: os algoritmos de distribuição de conteúdo são otimizados para maximizar o tempo de uso da plataforma, e conteúdo que provoca emoção intensa — especialmente medo, raiva e indignação — mantém o usuário na plataforma por mais tempo.

O resultado é que as plataformas, por sua própria arquitetura, selecionam e amplificam conteúdo político extremo, confrontacional e simplificador em detrimento de conteúdo moderado, nuançado e tecnicamente complexo. Um vídeo de Nikolas onde ele ‘destrói’ um ministro do STF com três argumentos simples vai a cinco milhões de pessoas. Uma análise de um economista explicando os mecanismos complexos pelos quais a política fiscal afeta a inflação vai a cinco mil.

Isso cria um incentivo perverso estrutural: o político que quer alcance maximiza o confronto. O PT, ao perceber isso, também adaptou progressivamente sua comunicação — os conteúdos mais engajados da comunicação petista são os que confrontam a direita com mais intensidade, não os que explicam políticas públicas. E Nikolas é o produto mais puro dessa lógica: um político inteiramente otimizado para o algoritmo.

A questão crítica é que essa otimização para o algoritmo e a otimização para a gestão pública eficiente são intrinsecamente contraditórias. O que gera engajamento digital é, em sua maior parte, o oposto do que gera boa administração pública. Boa administração é lenta, burocrática, cheia de decisões técnicas invisíveis. Bom conteúdo político para as redes é rápido, dramático, pessoal, emotivo. O político que maximiza um necessariamente sacrifica o outro.

VII. As Consequências para a Democracia Brasileira

7.1 A Erosão da Accountability

A primeira e mais grave consequência do populismo de identidade para a democracia é a erosão da accountability — a capacidade de responsabilizar governantes por seu desempenho. Em uma democracia funcional, o eleitor pune governantes que não entregam e recompensa os que entregam. Esse mecanismo de punição e recompensa é o motor que faz a democracia produzir bons governos ao longo do tempo.

Quando o eleitor de identidade substitui o critério de ‘entrega’ pelo critério de ‘pertencimento’, esse motor é desligado. O governante que pertence ao grupo correto pode falhar sistematicamente sem ser punido eleitoralmente, porque suas falhas são sempre enquadradas como perseguição externa. O resultado é que não há incentivo para melhorar a gestão — o incentivo é manter a identidade do grupo afiada e o inimigo visível.

O PT viveu esse processo: os escândalos de corrupção, que seriam fatais para partidos em democracias com accountability robusta, foram parcialmente absorvidos pela narrativa de perseguição. E Nikolas Ferreira está sendo construído dentro dessa mesma lógica: qualquer punição por declarações consideradas preconceituosas ou por disseminação de desinformação é imediatamente convertida em evidência de perseguição do ‘sistema’, o que aumenta o engajamento da base em vez de diminuí-lo.

7.2 A Paralisia Legislativa e Governamental

A segunda consequência é prática e imediata: quando os dois grandes blocos políticos do país operam em modo de guerra permanente, a capacidade de produzir consenso legislativo mínimo sobre questões urgentes se deteriora. Reformas estruturais que o Brasil precisa urgentemente — tributária, administrativa, previdenciária em novos aspectos — exigem negociação transversal. Exigem que políticos conversem com adversários, façam concessões, aceitem meias-vitórias.

Essa negociação é incompatível com a lógica identitária de ambos os lados. Para a base petista, negociar com ‘bolsonaristas e fascistas’ é traição. Para a base de Nikolas, negociar com ‘petistas e comunistas’ é cumplicidade. O resultado é que o espaço político para o necessário compromisso democrático se estreita progressivamente.

O paradoxo é que quem paga o preço dessa paralisia não são os líderes — que continuam ganhando bem, produzindo conteúdo, sendo reeleitos com suas bases fiéis — mas o cidadão comum, que espera pelo hospital público que não é construído porque a emenda foi bloqueada em disputa política, que paga o imposto que financia o aparelho estatal que performa em vez de funcionar.

7.3 O Risco do Líder-Performático no Executivo

A preocupação que motivou parte da conversa que inspira este ensaio é específica e legítima: o que acontece quando um político formado na lógica do espetáculo assume um cargo executivo — prefeito, governador, ou eventualmente presidente?

A história recente oferece alguns dados relevantes. Jair Bolsonaro é o caso mais próximo: um deputado federal por 27 anos cuja produção legislativa era praticamente zero, que ficou famoso por discursos polêmicos e confrontacionais, e que chegou à presidência como outsider anti-sistema. O resultado foi um governo que, mesmo nas áreas que sua base considerava prioritárias, produziu resultados modestos. A agenda econômica liberal foi progressivamente abandonada. A agenda de segurança pública não resultou em queda consistente dos índices de violência. A comunicação de crise da pandemia foi catastrófica. E o período terminou com uma tentativa de golpe de Estado que contaminou a imagem do próprio movimento que o elegera.

O caso Bolsonaro é instrutivo para pensar o potencial Nikolas presidenciável de 2030 ou 2034. Nikolas tem qualidades que Bolsonaro não tinha — é mais inteligente, mais articulado, mais disciplinado na comunicação. Mas compartilha com ele a ausência de experiência e interesse genuíno na gestão do Estado como aparato administrativo. A questão não é se ele conseguiria mobilizar votos — isso é certo. A questão é se conseguiria converter a energia de mobilização em governo funcional.

A resposta que a ciência política oferece é cautelar: líderes formados exclusivamente na lógica do confronto têm dificuldade estrutural em exercer o cargo executivo, porque o executivo exige a capacidade de gerenciar conflitos internos ao governo, negociar com instâncias que não se pode simplesmente ‘destruir’ em um vídeo, e tomar decisões técnicas complexas que não têm uma resposta certa e outra errada óbvias. O confronto externo é a habilidade nuclear do agitador. O gerenciamento interno de complexidade é a habilidade nuclear do gestor. São habilidades distintas, e a primeira não prepara para a segunda.

VIII. Estamos Condenados? Mecanismos de Resistência e Possibilidades de Saída

8.1 O Argumento da Resiliência Institucional

A tentação do pessimismo é compreensível, mas intelectualmente prematura. A democracia brasileira demonstrou, nos últimos anos, uma resiliência que muitos analistas não antecipavam. As instituições — Supremo Tribunal Federal, Tribunal Superior Eleitoral, Ministério Público, Forças Armadas em sua maioria — resistiram às pressões de 2022 e 2023. O sistema de freios e contrapesos funcionou, imperfeita mas funcionalmente.

Isso sugere que a estrutura institucional do país tem uma robustez que não é completamente dependente da qualidade dos políticos que transitam por ela. As regras do jogo sobreviveram a jogadores que tentaram subvertê-las. E isso é relevante para avaliar o risco que qualquer líder populista, de qualquer lado, representa para a democracia brasileira.

Há também um argumento de ciclo político. O eleitor brasileiro, historicamente, demonstra uma pragmaticidade que a polarização às vezes obscurece. O mesmo eleitorado que elegeu Lula em 2002 elegeu Bolsonaro em 2018 e reelegeu Lula em 2022. Esse vaivém sugere que, por baixo da retórica identitária, existe uma camada do eleitorado que ainda opera com alguma racionalidade de resultado — que pune governos que não entregam e recompensa os que entregam, mesmo que o processo seja lento e ruidoso.

8.2 O Papel da Imprensa e da Educação Cívica

Um dos poucos mecanismos eficazes contra o populismo de identidade é a manutenção de um jornalismo independente e de qualidade que aplique critérios consistentes de avaliação — os mesmos critérios para governos de esquerda e de direita, para oposicionistas petistas e nikolaristas. Isso exige que o jornalismo resista à tentação de ser ‘do lado’ de qualquer campo político e mantenha o compromisso com a verificação factual como critério central.

Esse é um ideal difícil de alcançar em um ambiente em que as redações também competem pela atenção em plataformas otimizadas para o confronto. Mas é um ideal que merece ser mantido e buscado, porque o jornalismo que abandona a verificação factual em favor da identidade de grupo deixa de cumprir sua função democrática e se torna mais um produtor de conteúdo na guerra de vibes.

A educação cívica — a formação de cidadãos que entendam como funcionam as instituições, que saibam avaliar propostas políticas com critérios técnicos, que reconheçam os mecanismos de manipulação emocional — é o investimento de longo prazo mais eficaz contra o populismo de identidade. É também o mais difícil de produzir, porque seus resultados são invisíveis no curto prazo e exigem décadas de política educacional consistente.

8.3 A Necessidade de um Novo Contrato com o Eleitor

A saída mais profunda para o impasse que este ensaio descreve não é técnica — é política. Requer líderes de qualquer lado do espectro que estejam dispostos a fazer um contrato diferente com seu eleitorado: não o contrato do espetáculo (‘eu enfrento seus inimigos’), mas o contrato da gestão responsável (‘eu resolvo seus problemas’).

Esse contrato é mais difícil de vender porque seus resultados são mais lentos, mais difusos e menos emocionalmente satisfatórios do que o espetáculo do confronto. Uma reforma tributária que simplifica o sistema e aumenta a eficiência econômica não vai a dez milhões de visualizações. Uma emenda aprovada que constrói um hospital em uma cidade média de Minas Gerais não gera trending topic.

Mas é esse tipo de resultado que determina, no longo prazo, se as pessoas vivem melhor ou pior. E há razão para acreditar que, dado o nível de frustração com a política espetáculo que já começa a aparecer em pesquisas e em conversas cotidianas, existe espaço crescente para líderes que ofereçam a alternativa da competência discreta.

O Brasil já elegeu esse tipo de liderança antes — em contextos municipais e estaduais, governadores e prefeitos que construíram reputações sólidas através de resultados mensuráveis sem necessariamente ter a máquina de mobilização de Lula ou o engajamento digital de Nikolas. Esses casos existem e são subvalorizados pelo debate nacional dominado pelos polos extremos.

IX. Conclusão: O Espelho Sem Reflexo

Este ensaio partiu de uma observação simples — de que Nikolas Ferreira e o PT contemporâneo são, em seus mecanismos fundamentais, a mesma farinha — e procurou desenvolver essa observação com a seriedade analítica que ela merece.

O que descobrimos ao longo desse percurso é que a identidade entre os dois não é superficial — não é apenas questão de ‘ambos gritam’ ou ‘ambos atacam o outro lado’. A identidade é estrutural: ambos constroem identidades políticas baseadas no antagonismo; ambos convertem a crise em recurso; ambos protegem seus líderes com um duplo padrão sistemático; ambos priorizam o símbolo sobre a substância; ambos redefinem o mandato político como performance de pertencimento em vez de exercício de responsabilidade pública.

Ao mesmo tempo, vimos que a equivalência tem limites. O PT tem uma história de entregas concretas que não tem equivalente no projeto nikolariano. Nikolas representa uma geração política ainda jovem cuja trajetória não está determinada. As diferenças de contexto, de base social, de história acumulada são reais e relevantes.

Mas a conclusão central permanece: o Brasil político contemporâneo está preso em um teatro de sombras onde dois espetáculos diferentes usam o mesmo roteiro para manter duas plateias igualmente cativas, igualmente mobilizadas emocionalmente, e igualmente distantes da análise crítica de quem governa melhor.

O cidadão que sai desse teatro não é aquele que escolhe o lado certo — porque não há lado certo nessa estrutura. É aquele que recusa o teatro como tal. Que exige do seu representante não que enfrente o inimigo, mas que resolva o problema. Que aplica o mesmo critério ao governante que admira e ao governante que critica. Que entende que a democracia não é uma guerra entre bem e mal, mas um sistema de resolução pacífica de conflitos entre pessoas que têm interesses e valores diferentes.

Essa recusa não é fácil. É cognitivamente exigente. É emocionalmente insatisfatória comparada à intensidade de pertencer a uma tribo política com inimigos claros e heróis definidos. Mas é o único caminho para uma democracia que entregue o que promete: não a vitória do bem sobre o mal, mas a melhora gradual e constante das condições de vida de todos.

Nikolas Ferreira e Lula são, afinal, personagens do mesmo Brasil — um Brasil que aprendeu a confundir barulho com ação, símbolo com política, lealdade tribal com cidadania. O desafio não é escolher entre eles. O desafio é construir, com lentidão e sem espetáculo, algo que nenhum dos dois representa suficientemente: uma política de resultados.

É inevitável, neste ponto, confrontar a objeção mais comum que este argumento recebe: ‘você está fazendo ambos os lados equivalentes, e isso é uma forma de favorecer o lado mais perigoso’. A objeção tem um núcleo válido — como observamos na seção sobre diferenças reais, o PT tem um histórico de conquistas concretas que Nikolas não tem, e atacar minorias vulneráveis é diferente de atacar elites econômicas. Essas diferenças importam e não foram ignoradas aqui.

Mas a objeção ignora que o argumento deste ensaio não é sobre consequências das políticas — é sobre métodos de política. A equivalência que se estabelece é metodológica, não moral ou histórica. Dois médicos que usam o mesmo instrumento de diagnóstico de forma equivocada podem estar tratando doenças diferentes e ter históricos profissionais diferentes, mas compartilham o mesmo erro metodológico. Identificar esse erro compartilhado não é dizer que os dois médicos são idênticos — é dizer que ambos precisam corrigir o método, cada um no seu contexto.

Da mesma forma, dizer que PT e Nikolas compartilham a estrutura do populismo de identidade não é dizer que são moralmente equivalentes em tudo — é dizer que ambos precisam corrigir a relação com o eleitor que essa estrutura produz. O PT precisa de menos mito lulopetista e mais accountability real. Nikolas precisa de menos espetáculo digital e mais legislação concreta. E o eleitor brasileiro precisa começar a cobrar de ambos não o latido mais alto, mas o resultado mais consistente.

A democracia brasileira tem uma vantagem que outros países em crise democrática não têm: ela é jovem o suficiente para aprender, e tem uma sociedade civil ativa o suficiente para exigir. O IBGE, as universidades públicas, o jornalismo investigativo que sobreviveu à pressão comercial e política, os movimentos sociais que não se tornaram apêndices de partido — esses são recursos reais para a construção de uma política mais substantiva. O caminho não é fácil, mas existe. E começa pelo reconhecimento honesto de que o problema não tem um único rosto, uma única sigla, um único lado.

X. O Fenômeno em Perspectiva Comparada: Brasil no Mapa do Populismo Global

10.1 A Família Global do Populismo de Identidade

Para compreender plenamente o que se passa no Brasil, é necessário situar o fenômeno dentro de um movimento político mais amplo que atravessou democracias do mundo inteiro nas últimas duas décadas. O populismo de identidade não é uma invenção tropical — é um padrão global que emergiu com variações locais em países tão distintos quanto os Estados Unidos, a Hungria, a Itália, a Índia, a Argentina, a França e o Reino Unido.

No espectro de direita, o padrão é reconhecível: Donald Trump nos Estados Unidos, Viktor Orbán na Hungria, Giorgia Meloni na Itália, Javier Milei na Argentina. Todos compartilham a construção de um ‘povo’ ameaçado por ‘elites cosmopolitas’ ou ‘globalistas’, um estilo de comunicação que prioriza o confronto sobre a negociação, e uma relação ambígua com as instituições democráticas — usam-nas quando conveniente, atacam-nas quando inconveniente. Nikolas Ferreira se encaixa com precisão nesse mapa.

No espectro de esquerda, o padrão tem rostos diferentes mas estrutura similar: Jeremy Corbyn no Reino Unido, Jean-Luc Mélenchon na França, o kirchnerismo na Argentina, Evo Morales na Bolívia. Todos constroem um ‘povo trabalhador’ ameaçado pelo ‘capital financeiro’ e pelas ‘elites neoliberais’, usam o confronto como instrumento central de mobilização, e tendem a ver a crítica interna como traição. O PT pós-2005 se encaixa nesse segundo padrão.

O que é particularmente revelador na perspectiva comparada é que em vários países onde o populismo de direita chegou ao poder (Trump, Bolsonaro, Orbán), as políticas econômicas e sociais concretas frequentemente contradiziam os interesses dos eleitores de baixa renda que compunham a base de mobilização. A guerra cultural — sobre imigração, sobre gênero, sobre religião — funcionou como substituto de classe: manteve eleitores pobres votando em partidos cujos programas econômicos os desfavoreciam, porque a identidade cultural foi mais poderosa do que o interesse material.

No Brasil, Nikolas representa a versão mais sofisticada desse padrão. Seu eleitorado em Minas Gerais inclui uma parcela significativa de trabalhadores urbanos de renda média e baixa, cujos interesses em termos de política pública — saúde, transporte, segurança — não são particularmente servidos pelas pautas culturais que ele prioriza. Mas a identidade evangélica e conservadora que ele representa é poderosa o suficiente para manter esses eleitores mobilizados independentemente da ausência de entregas concretas.

10.2 A Diferença que o Brasil Ainda Preserva

Apesar das similitudes estruturais com fenômenos internacionais, o Brasil preserva algumas especificidades que merecem atenção. A primeira é que o sistema proporcional de lista aberta produz um Congresso altamente fragmentado, o que impede que qualquer figura populista — de qualquer lado — tenha domínio legislativo completo. Diferentemente de Hungria ou Argentina, onde mudanças constitucionais foram possíveis pela força de maiorias parlamentares alinhadas com o executivo, no Brasil a fragmentação força a negociação com o Centrão, que funciona como freio não intencional ao populismo mais extremo.

A segunda especificidade é o papel do Supremo Tribunal Federal. Seja qual for o juízo que se faça sobre suas decisões individuais, o STF funcionou como contrapeso relevante nos momentos de maior pressão sobre as instituições. A decisão de retomar a elegibilidade de Lula após a anulação das condenações da Lava Jato, e a subsequente decisão de responsabilizar os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, mostram um tribunal disposto a exercer sua função mesmo em condições de pressão política intensa.

A terceira especificidade é cultural: o Brasil tem uma tradição de humor político — o carnaval como válvula de alívio, a sátira como instrumento de crítica — que torna a população menos reverente diante de qualquer liderança. O mesmo povo que hoje idolatra Lula ou Nikolas é capaz de rir deles amanhã. Essa irreverência estrutural é um anticorpo cultural frágil mas real contra o culto à personalidade que o populismo exige para sua consolidação.

XI. Estudo de Caso: A Caminhada de Nikolas e a Marcha dos Sem-Terra

O anúncio de Nikolas Ferreira de uma caminhada de Minas Gerais até Brasília, em janeiro de 2026, oferece um laboratório analítico precioso para examinar o duplo padrão em ação e a política como espetáculo de ambos os lados.

Quando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra organiza uma marcha até Brasília — prática que o movimento pratica desde os anos 1990 (a primeira grande marcha nacional chegou a Brasília em 1997) — a reação da base de Nikolas é invariavelmente de indignação: ‘baderneiros atrapalhando o trânsito’, ‘vagabundos que não querem trabalhar’, ‘manifestação financiada por Cuba e Venezuela’. O movimento é deslegitimado na forma (perturbação da ordem pública) e no conteúdo (reforma agrária como socialismo disfarçado).

A caminhada de Nikolas utiliza exatamente o mesmo instrumento — a mobilização física de pessoas em espaço público, em direção à capital, com mensagem política clara — e recebe tratamento diametralmente oposto da mesma base: ‘sacrifício patriótico’, ‘demonstração de amor ao Brasil’, ‘liderança que coloca o corpo à disposição da causa’. O instrumento é idêntico. O enquadramento é invertido.

Do lado petista, a reação é o espelho: a marcha de Nikolas é criticada como ‘show’, ‘populismo barato’, ‘esforço físico que não resolve nada’. As mesmas críticas que a base de Nikolas faz às marchas do MST são aplicadas à marcha de Nikolas. E as mesmas defesas que a base de Nikolas oferece para a caminhada dele seriam, se aplicadas às marchas do MST, imediatamente descartadas como ‘ingenuidade’ ou ‘cumplicidade com os invasores de terra’.

O que esse exemplo revela é que nenhum dos dois lados tem uma posição sobre ‘marchas políticas’ — têm uma posição sobre quem está marchando e por quê. A ‘marcha’ em si é neutra como instrumento político. Mas o pertencimento identitário determina completamente como ela é avaliada, tornando impossível qualquer critério consistente de análise.

Esse é o impasse democrático que este ensaio denuncia: quando todos os critérios de avaliação política são subordinados ao pertencimento tribal, não há mais critério — há apenas tribos. E tribos não governam democracias — no máximo, as paralizam.

XII. A Questão da Inteligência: Quando Astúcia se Confunde com Sabedoria

Uma questão que percorre a conversa que inspira este ensaio merece desenvolvimento autônomo: por que tantas pessoas consideram Nikolas Ferreira inteligente? E, por extensão, por que Lula é considerado inteligente por sua base, mesmo quando faz declarações que objetivamente contradizem valores que o mesmo eleitorado sustenta?

A ciência cognitiva distingue pelo menos três tipos de inteligência relevantes para a política: a inteligência analítica (capacidade de compreender sistemas complexos, analisar dados, elaborar políticas baseadas em evidências), a inteligência social (capacidade de ler emoções e dinâmicas de grupo, construir relacionamentos, mobilizar pessoas) e a inteligência estratégica (capacidade de perceber oportunidades, antecipar movimentos adversários, posicionar-se para vantagem de longo prazo).

Lula tem inteligência social extraordinária — uma das maiores já produzidas pela política brasileira. Sua capacidade de ler a sala, de ajustar o discurso para diferentes audiências, de criar empatia instantânea com interlocutores de backgrounds completamente diferentes é genuinamente rara. Essa habilidade foi o motor de uma carreira política de cinquenta anos. Ela é real e merece reconhecimento.

O que Lula tem em menor grau é inteligência analítica — ele não é, e nunca foi, um pensador de políticas públicas. Seu governo funcionou melhor quando cercado de técnicos competentes que traduziram seus instintos políticos corretos em políticas implementáveis. Quando os técnicos foram afastados ou corrompidos pelo esquema de corrupção sistêmica que tomou conta dos governos petistas, a inteligência social de Lula não compensou a ausência de capacidade técnica.

Nikolas, por sua vez, demonstra inteligência estratégica impressionante — especialmente para sua idade. Sua trajetória de vereador a deputado mais votado do Brasil em poucos anos é objetivamente difícil de replicar e exige planejamento, visão de longo prazo e execução competente. Ele também demonstra velocidade de raciocínio em debates — a capacidade de construir contra-argumentos rápidos, de usar citações de adversários contra eles mesmos, de manter a coerência narrativa mesmo sob pressão.

O que está menos claro, porque ainda não foi testado, é sua inteligência analítica. Não sabemos se ele consegue compreender e articular a complexidade da política fiscal brasileira, as implicações macroeconômicas de diferentes modelos tributários, os trade-offs entre crescimento e distribuição. Seus discursos públicos sugerem uma aptidão para a simplificação que é eficaz como ferramenta de comunicação, mas que pode ser limitante como ferramenta de governo.

A confusão entre astúcia comunicativa e sabedoria política é um dos vetores mais perigosos do populismo. Um líder que é bom em parecer inteligente não é necessariamente bom em tomar decisões que beneficiam o país. A história da política global está cheia de exemplos de líderes que eram extraordinariamente habilidosos na arte de conquistar e manter o poder, e extraordinariamente incompetentes na arte de usá-lo bem. A competência política e a competência administrativa se sobrepõem, mas não são a mesma coisa.

Quando os eleitores de ambos os lados elegem por ‘inteligência’, frequentemente estão elegendo pela inteligência de tipo comunicativa-estratégica — a inteligência de dizer o que eles querem ouvir, do jeito que os entusiasma. Mas o que governa o país exige a inteligência analítica mais ingrata e menos espetacular — a que produz orçamentos equilibrados, reformas estruturais e políticas de saúde baseadas em evidências. O espectador de teatro tende a premiar a performance. Mas é o governo que paga a conta.

XIII. A Geração Que Cresceu no Espetáculo e a Política do Futuro

Uma dimensão que o ensaio não poderia deixar de abordar é a questão geracional. Nikolas Ferreira é produto de uma geração — os nascidos entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2000 — que cresceu dentro das redes sociais como ambiente natural. Para essa geração, a distinção entre ‘realidade’ e ‘representação da realidade’ é mais porosa do que para gerações anteriores. O Instagram não é um espelho da vida — é uma versão melhorada e editada da vida que concorre com a vida real pela atenção e pelo investimento emocional.

Quando essa geração entra na política, traz consigo os padrões cognitivos das redes: a expectativa de conteúdo rápido e emocionalmente intenso, a tolerância reduzida para a lentidão burocrática da gestão pública, a preferência por líderes que ‘falam a língua’ da plataforma. E encontra em Nikolas exatamente esse produto: um político que é nativo do mesmo ambiente cognitivo em que esses jovens vivem.

Isso gera um problema estrutural de longo prazo. A democracia é um sistema lento. Não porque seus designers fossem incompetentes — mas porque a lentidão foi deliberadamente construída como proteção contra decisões precipitadas e concentrações de poder. A separação de poderes, os processos legislativos em múltiplas etapas, os mandatos com duração fixa, as proteções constitucionais para minorias — tudo isso foi criado para tornar as mudanças políticas graduais e reversíveis, em vez de rápidas e irreversíveis.

Essa lentidão é cognitivamente incompatível com a expectativa algorítmica de resposta imediata. Um jovem habituado a receber resposta em segundos encontra no Estado uma burocracia que responde em anos. E a tentação natural é culpar a burocracia — ou as pessoas que a administram — em vez de compreender que a lentidão é, em parte, uma funcionalidade, não um defeito.

O risco geracional específico de Nikolas como fenômeno político é que ele está ensinando uma geração de jovens brasileiros que a política funciona como as redes sociais — que o confronto espetacular é a forma correta de exercer o mandato, que a popularidade é a medida da competência, que ‘latir’ é equivalente a ‘morder’. Se essa geração chegar ao poder em larga escala sem desenvolver uma compreensão mais sofisticada do que é governar, o país enfrentará décadas de liderança que confunde performance com governança.

Esse não é um destino inescapável. Há jovens políticos brasileiros que demonstram capacidade de combinar comunicação moderna com competência técnica genuína — que entenderam que é possível usar as ferramentas das redes sem reduzir a política ao espetáculo. Esses casos merecem mais atenção do que o debate público normalmente lhes concede, porque são os mais promissores para uma saída do impasse atual.

Nota Metodológica e Fontes Conceituais

Este ensaio é de natureza analítica e argumentativa, combinando ciência política, psicologia cognitiva e sociologia política. As referências conceituais incluem, entre outros: Pierre Rosanvallon (teoria da contrademocracia), Jan-Werner Müller (What is Populism?), Umberto Eco (ensaios sobre fascismo e comunicação de massa), Naomi Klein (No Logo, sobre marca e identidade), Jonathan Haidt (The Righteous Mind, sobre psicologia moral política), e a produção acadêmica brasileira sobre comportamento eleitoral e comunicação política, especialmente dos grupos de pesquisa da USP, UFMG e FGV. Os dados sobre produção legislativa e emendas parlamentares são de domínio público, disponíveis no portal da Câmara dos Deputados. A análise das falas e episódios específicos baseia-se, em boa parte, em registros públicos; alguns episódios — em especial a frase atribuída a Lula em janeiro de 2026 — não puderam ser confirmados em registro primário, e as epígrafes que abrem o ensaio são formulações minhas, e não citações textuais de Rosanvallon ou de Eco.

Fevereiro de 2026


Nota sobre fontes e método (revisão de outubro de 2026)

Este é um ensaio de opinião. As leituras sobre intenções, estilos e estratégias de Lula, do PT e de Nikolas Ferreira são interpretações minhas, e não fatos apurados; os pontos factuais que podem ser conferidos foram revisados nesta versão.

Corrigido na revisão: a população brasileira (mais de 200 milhões); Nikolas Ferreira foi o deputado federal mais votado do país em 2022, e não “da história”; no caso de Hitler, o que se pode afirmar é que seu partido foi o mais votado nas eleições de julho de 1932; as mortes por câncer de próstata (cerca de 16 mil por ano, segundo o INCA); o início das marchas do MST a Brasília (anos 1990). Permanece sem confirmação em registro primário a frase atribuída a Lula em janeiro de 2026, tratada no texto como atribuição.

Os fatos e a conjuntura refletem fevereiro de 2026 e não foram atualizados para as eleições de outubro de 2026.

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