Philomathēs Matheus Soranço

Eles já estavam lá com seu trabalho, você que nunca percebeu

Publicado em
Atualizado
Tipo
Ensaio
Leitura
63 min de leitura
Idioma
pt-BR
Assinado como
Alexei Zhakev

Prefácio: O Retorno do Pensamento Sério à Política

Há uma percepção comum de que a política contemporânea é superficial — dominada por memes, escândalos, ciclos de notícias de 24 horas e personalidades midiáticas desprovidas de substância intelectual. É uma percepção sedutora, mas fundamentalmente equivocada. Por baixo da superfície caótica das democracias liberais em colapso, dos populismos ascendentes, das guerras culturais e das novas formas de autoritarismo, existe uma fermentação filosófica extraordinariamente rica. Os grandes movimentos políticos do presente não brotaram do nada: eles são, em certa medida, a expressão prática — frequentemente distorcida, vulgarizada e mediada por camadas de simplificação — de ideias que foram cuidadosamente desenvolvidas ao longo de décadas por pensadores que trabalham nas margens da filosofia, da teoria política, da crítica cultural e até da ficção científica.

Este ensaio é uma tentativa de cartografar esse território subterrâneo. Não se trata de um mapeamento neutro ou puramente descritivo: a tarefa filosófica exige julgamento, e os pensadores aqui analisados serão tanto expostos em suas contribuições genuínas quanto criticados em seus pontos cegos, contradições e perigosas implicações. Atravessaremos o aceleracionismo de Nick Land e suas múltiplas mutações, o tradicionalismo geopolítico de Alexander Dugin, o neoconfucionismo de Wang Huning, a teoria crítica progressista e suas raízes frankfurtianas, e os pensadores que orbitam esses sistemas — Julius Evola, René Guénon, Carl Schmitt, Donna Haraway, Mark Fisher, Slavoj Žižek, entre muitos outros.

O argumento central é simples, mas suas ramificações são complexas: a política do século XXI não é fundamentalmente uma batalha entre “esquerda” e “direita” no sentido convencional, nem mesmo entre liberalismo e autoritarismo. É uma batalha entre diferentes filosofias da história, diferentes ontologias do tempo, diferentes concepções do que é o humano e do que deveria ser o seu destino coletivo. Entender isso não é um exercício meramente acadêmico — é uma necessidade para qualquer pessoa que queira compreender o mundo em que vive.


I. Nick Land e o Aceleracionismo: A Filosofia do Colapso como Libertação

1.1 Origens: O CCRU e o Cyberpunk Filosófico

Para compreender Nick Land é preciso começar pelo contexto que o formou. Na Universidade de Warwick, em meados dos anos 1990, Land co-fundou com Sadie Plant o Cybernetic Culture Research Unit (CCRU) — um coletivo academicamente heterodoxo que combinava teoria continental (Deleuze e Guattari acima de tudo), ficção científica, misticismo, cultura rave e especulação tecnológica em um amálgama deliberadamente desorientador. O CCRU não queria produzir filosofia acadêmica convencional; queria produzir “filosofia que infecta”, ideias que se reproduzissem como vírus culturais.

A influência de Gilles Deleuze e Félix Guattari é fundamental para entender Land. Em O Anti-Édipo (1972) e Mil Platôs (1980), Deleuze e Guattari desenvolveram uma crítica radical tanto ao capitalismo quanto ao marxismo ortodoxo, propondo a noção de “fluxos desejantes” — forças libidinais que o capitalismo tanto libera quanto captura, decodifica e recodifica. O capitalismo, para eles, é uma máquina axiomática que desterritorializa e reterritorializa constantemente: ele dissolve antigas formas de organização social apenas para criar novas formas de captura. A saída não seria uma volta ao passado (reterritorialização reacionária) nem a tomada do Estado pelo proletariado (uma reterritorialização diferente), mas a aceleração dos próprios fluxos desterritorializantes até seu limite — a “esquizofrenia” como limite do capitalismo.

Land pegou este argumento e o radicalizou de maneiras que os próprios Deleuze e Guattari provavelmente teriam rejeitado com horror. Em textos como “Machinic Desire” (1993), “Circuitries” (1992) e na coletânea Fanged Noumena (2011), Land desenvolve uma visão na qual o capitalismo não é apenas um sistema histórico-econômico, mas algo próximo de uma inteligência emergente, uma força cósmica de desterritorialização que está progressivamente destruindo as formas humanas de organização e identidade em direção a algo que excede a humanidade.

O “humano”, para Land, é um obstáculo. A modernidade, com sua democracia, seus direitos humanos, sua igualdade — tudo isso é uma tentativa de frear, de humanizar, de dar rosto a um processo que é essencialmente inumano. O capitalismo, na leitura landiana, não quer a democracia liberal: ele a tolera enquanto precisa, e a dissolverá quando puder. A crise atual do liberalismo não é um acidente histórico a ser corrigido — é a lógica do capital se revelando.

1.2 O Aceleracionismo Original: Além da Esquerda e da Direita

O aceleracionismo landiano é, em sua formulação original, uma posição paradoxal que não cabe nos eixos políticos convencionais. Land não é um conservador: ele odeia a conservação. Não é um progressista: ele acha que o progresso humanista é uma ilusão sentimental. Não é um fascista no sentido convencional: o fascismo histórico era uma tentativa de reterritorialização nacional, e Land é radicalmente anti-nacional. Ele está, em certo sentido, além da política — ou aquém dela, em um nível onde as questões não são “quem deve governar” mas “o que é governável” e “o que está governando silenciosamente todas as nossas tentativas de governar”.

A tese central do aceleracionismo (em sua versão landiana) pode ser formulada assim: as contradições do capitalismo tardio não devem ser atenuadas pelas políticas de bem-estar, redistribuição e regulação — devem ser aceleradas. Não porque o colapso seja desejável em si mesmo (embora Land frequentemente pareça sugeri-lo), mas porque a tentativa de moderar o capitalismo apenas prolonga a agonia e impede a emergência de algo verdadeiramente novo. O sujeito histórico não é o proletariado consciente de Marx — é o próprio processo maquínico do capital, que usa os humanos como suportes provisórios antes de descartá-los.

Esta posição tem uma genealogia filosófica complexa. Além de Deleuze e Guattari, Land dialoga com Nietzsche (a crítica ao ressentimento, a vontade de potência como força desumana), com Kant (o “noumenal” do título Fanged Noumena — a coisa-em-si que excede toda representação humana), e com certas correntes do misticismo ocidental que Land, talvez surpreendentemente, incorpora em sua obra.

1.3 A Virada Neorreacionária: Do Aceleracionismo ao NRx

A trajetória intelectual de Land após o colapso nervoso dos anos CCRU é fascinante e perturbadora. Nos anos 2000-2010, Land apareceu novamente no ecossistema intelectual da internet com uma orientação radicalmente diferente: o Neorreacionarismo (NRx), também chamado de “Dark Enlightenment” (Iluminismo Sombrio).

O NRx é uma síntese improvável de vários elementos: a crítica ao progressismo de escritores como Mencius Moldbug (Curtis Yarvin), a filosofia política de Carl Schmitt, elementos de pensamento libertário de direita, e a sensibilidade tecnológica do Vale do Silício. A tese central é que a democracia liberal é um sistema de governo fundamentalmente disfuncional, que cria incentivos para a mediocridade, a desresponsabilização e a degradação cultural. Em seu lugar, o NRx imagina formas de governo que variam desde monarquias corporativas até “patarchies” (sistemas de autoridade patriarcal), passando pela ideia de “Saída” (exit) — a criação de novos microestados onde diferentes formas de organização social possam competir.

O texto fundador desta tendência é “The Dark Enlightenment” do próprio Land, publicado online em 2012-2013, um documento denso e provocativo que mapeia o que Land chama de “catedral” — sua metáfora para o complexo de poder formado pela mídia mainstream, universidades e burocracia estatal, que perpetua o progresso democrático-igualitário. A “catedral” não é uma conspiração consciente; é uma estrutura auto-replicante de incentivos que favorece certas posições ideológicas sobre outras.

O aceleracionismo de Land gerou mutações que hoje circulam amplamente nas redes. O mais notável é a divisão entre L/ACC (aceleracionismo de esquerda) e R/ACC (aceleracionismo de direita), mas também existem o U/ACC (aceleracionismo incondicional), o MAGA-ACC e inúmeras outras variações.

O aceleracionismo de esquerda (teorizado por Alex Williams e Nick Srnicek no manifesto #Accelerate de 2013, e desenvolvido em Inventar o Futuro, 2015) pegou a premissa landiana mas inverteu o sinal político. Para Williams e Srnicek, a esquerda cometeu o erro de se tornar “folk politics” — localista, imediatista, avessa à abstração e à escala. O que a esquerda precisa não é de resistência ao capitalismo tecnológico, mas de apropriar-se das forças produtivas que ele gera: automação, inteligência artificial, redes globais. O objetivo é um pós-capitalismo tecnológico que libere os humanos do trabalho alienado, não uma volta nostálgica ao artesanato ou à comunidade local.

Esta vertente do aceleracionismo conecta-se com a tradição do prometeanismo de esquerda — a crença de que a tecnologia, apropriada coletivamente, pode servir à emancipação humana. É uma recuperação, em certos aspectos, do Marx mais otimista: aquele que, nos Grundrisse, imaginava as máquinas como “órgãos do cérebro humano” que eventualmente tornariam dispensável o trabalho humano direto.

O R/ACC, por sua vez, tende a se fundir com o tecno-otimismo do Vale do Silício e com certos elementos do movimento MAGA. Figuras como Peter Thiel, que financiou vários projetos ligados ao NRx, ou Elon Musk, cuja visão de aceleração tecnológica tem ressonâncias com temas landianos, representam uma versão mainstream (e bilionária) de certas intuições aceleracionistas. A ideia de que o Estado regulador, as instituições democráticas e o igualitarismo progressista são obstáculos ao desenvolvimento tecnológico e humano tem ampla circulação nos círculos tech.

Mark Fisher, que trabalhou com Land no CCRU antes de seguir um caminho radicalmente diferente (marxista e depressivo, como ele próprio descreveria), capturou genialmente a tensão central do aceleracionismo em seu conceito de “realismo capitalista”: a sensação de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Para Fisher, esta impossibilidade de imaginação alternativa é o sintoma central da patologia cultural contemporânea — e o aceleracionismo, longe de superá-la, é sua expressão mais consequente: aceitar que não há alternativa e concluir que portanto devemos acelerar em direção ao colapso.


II. Alexander Dugin e o Eurasianismo: A Filosofia do Quarto Mundo

2.1 Dugin entre a Tradição e a Revolução

Alexander Dugin é provavelmente o pensador político mais influente que a maioria das pessoas no Ocidente desconhece. Filósofo russo, geopolítico e agitador cultural, Dugin construiu ao longo de décadas uma síntese filosófica extraordinariamente ambiciosa que tenta superar as divisões clássicas entre esquerda e direita, Oriente e Ocidente, tradição e modernidade. Sua obra principal, A Quarta Teoria Política (2009), é uma declaração de guerra ao liberalismo — mas não do tipo convencional.

Para entender Dugin, é preciso compreender o contexto russo pós-soviético. Com o colapso da URSS em 1991, a Rússia passou por um período de humilhação nacional profunda — o que os russos chamam de “os anos 90 sem lei” (лихие девяностые). O liberalismo chegou à Rússia na forma de terapia de choque econômica, corrupção oligárquica e dependência cultural do Ocidente. Para muitos intelectuais russos, o liberalismo não era emancipação, mas colonização sob outro nome.

Dugin ofereceu uma resposta intelectual a esta experiência que ia muito além do nacionalismo convencional. Ele é herdeiro de múltiplas tradições: do eurasianismo clássico dos anos 1920 (Trubetzkoy, Savitsky), que argumentava que a Rússia não era nem Europa nem Ásia mas algo distinto; do Novo Conservadorismo alemão (Carl Schmitt, Oswald Spengler, Ernst Jünger), do pensamento geopolítico inglês e alemão (Mackinder, Haushofer), do Tradicionismo de Julius Evola e René Guénon, e de elementos da esquerda anti-colonial e da Nova Esquerda.

2.2 A Quarta Teoria Política: Além das Três Ideologias Modernas

O argumento central de A Quarta Teoria Política é que as três grandes ideologias modernas — liberalismo, comunismo e fascismo — estão esgotadas. O liberalismo “venceu” a Guerra Fria, mas sua vitória revelou seu vazio: sem adversários externos que o forçassem a ser mais humano, o liberalismo revelou sua natureza essencial como dissolvente de toda identidade, tradição e comunidade em nome do indivíduo-mercadoria.

O comunismo foi derrotado não apenas politicamente mas filosoficamente: sua promessa de emancipação coletiva mostrou-se uma utopia que, ao tentar realizar-se, produziu totalitarismo. O fascismo foi derrotado militarmente e moralmente, tornando-se impossível como proposta política explícita (embora Dugin, como veremos, beba amplamente desta fonte).

O que seria, então, uma Quarta Teoria Política? Dugin é deliberadamente vago sobre os contornos positivos de sua proposta, mas os elementos negativos são claros: recusa do liberalismo e do individualismo que o fundamenta, recusa do materialismo histórico marxista, incorporação de certos elementos do conservadorismo revolucionário europeu. O “sujeito” da Quarta Teoria não é o indivíduo (liberalismo), nem a classe (marxismo), nem a raça ou nação (fascismo), mas o que Dugin chama de Dasein — apropriando-se do conceito heideggeriano para um fim que Heidegger dificilmente teria sancionado.

2.3 Heidegger como Arma Geopolítica

O uso que Dugin faz de Heidegger é filosoficamente controverso mas politicamente engenhoso. O Dasein de Heidegger — o “ser-aí”, a existência humana enquanto essencialmente contextual, situada, temporal — é transformado por Dugin em um conceito coletivo e civilizacional. Cada civilização teria seu próprio Dasein, sua própria forma de abertura ao ser, irredutível às outras. O projeto liberal de universalização é, portanto, não apenas imperialismo político-econômico, mas um imperialismo ontológico: a imposição de um único Dasein (ocidental, individualista, secular-progressista) sobre todos os outros.

Esta argumentação permite a Dugin apresentar o “eurasianismo” não como mero nacionalismo russo, mas como defesa do pluralismo ontológico — da multiplicidade de formas de existência humana contra a homogeneização liberal. A Rússia, nesta visão, não está lutando apenas por seus interesses geopolíticos, mas pela sobrevivência da diversidade humana contra o que Dugin chama de “mondialismo” (a globalização como projeto de dominação ocidental).

É preciso notar a habilidade retórica desta manobra. Ao apropriar-se do vocabulário do pluralismo e da diferença — tipicamente associado à esquerda pós-colonial e ao multiculturalismo — Dugin consegue apresentar o autoritarismo russo e o expansionismo imperial como formas de resistência à hegemonia. Esta estratégia tem tido sucesso surpreendente em certos círculos da esquerda anti-imperialista ocidental.

2.4 A Geopolítica do Caos: Terra vs. Mar, Heartland vs. Rimland

Uma dimensão fundamental do pensamento de Dugin — frequentemente negligenciada nas análises de sua filosofia política — é a geopolítica. Dugin é herdeiro da tradição de Halford Mackinder (o geógrafo britânico que formulou a teoria do “Heartland” — o “coração” euroasiático como pivot geográfico da história) e de Karl Haushofer (o geopolítico alemão que influenciou a Geopolitik nazista).

A oposição central desta tradição é entre as “potências terrestres” e as “potências marítimas” — ou, na formulação mais clássica, entre a Rússia/Alemanha (Terra) e o Reino Unido/Estados Unidos (Mar). Para Dugin, esta oposição é não apenas estratégica mas quase ontológica: as civilizações terrestres tendem ao comunitarismo, à hierarquia, à tradição, ao fechamento; as civilizações marítimas tendem ao comércio, ao individualismo, ao liberalismo, à abertura. O conflito geopolítico contemporâneo entre o “Ocidente” e o “Resto” é apenas a manifestação mais recente desta oposição imemorial.

Neste quadro, a tarefa da Rússia é liderar o “Heartland” euroasiático contra a hegemonia do “Rimland” marítimo-liberal. E a chave para isso é construir alianças com todas as forças anti-hegemônicas do mundo: os islamismos anti-ocidentais, os populismos de direita europeus, as esquerdas anti-imperialistas latino-americanas, os nacionalismos asiáticos. O que une esses movimentos díspares não é uma ideologia comum, mas uma rejeição comum do liberalismo universalista.

2.5 A Influência Real de Dugin

Quanto à influência real de Dugin sobre Putin e a política russa, há um intenso debate. O próprio Dugin foi marginalizado politicamente várias vezes, e é provável que sua influência seja mais cultural e ideológica do que diretamente política. Mas as ideias eurasianas — em versões mais moderadas e menos filosoficamente elaboradas — permeiam o discurso do Kremlin. A justificativa da invasão da Ucrânia em termos de resistência à expansão da OTAN, de proteção de identidades culturais distintas, de multipolaridade contra a hegemonia americana — todas essas narrativas têm ressonâncias duginistas.

Além disso, Dugin tem conexões reais com movimentos de extrema direita europeus — o Front National francês, o Jobbik húngaro, o AfD alemão em seus setores mais extremos, a Lega italiana. A Internacional Eurasiana que ele tenta construir é uma tentativa de criar um campo global de resistência ao liberalismo que supere as divisões tradicionais de esquerda e direita.


III. Julius Evola e René Guénon: A Sombra do Tradicionismo

3.1 Guénon: A Crise do Mundo Moderno

Para entender Dugin — e, por extensão, várias correntes do populismo contemporâneo — é necessário recuar ainda mais e examinar René Guénon (1886-1951) e Julius Evola (1898-1974), os dois grandes pensadores do “Tradicionismo” ou “Filosofia Perene” que influenciaram profundamente a direita radical europeia e suas ramificações contemporâneas.

René Guénon foi um filósofo francês que se converteu ao Islam sufista e passou a segunda metade da vida no Cairo. Em obras como A Crise do Mundo Moderno (1927) e O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos (1945), Guénon desenvolveu uma crítica radical da modernidade a partir de uma perspectiva metafísica que reclama a continuidade das “tradições primordiais” de todas as grandes religiões.

Para Guénon, a modernidade não é progresso — é queda. Ele adota a cosmologia hindu dos ciclos cósmicos (Kali Yuga — a era sombria de decadência) e a interpreta em termos filosóficos: a modernidade representa o triunfo da quantidade sobre a qualidade, do material sobre o espiritual, do periférico sobre o central. A ciência moderna não é conhecimento — é o domínio das aparências fenomênicas que recusa a metafísica. A democracia não é emancipação — é a nivelação que destrói a hierarquia sagrada.

A solução guénoniana não é política, mas metafísica: a reconexão com as tradições espirituais que mantêm viva a “Tradição Primordial” — o núcleo metafísico comum a todas as grandes religiões. Guénon não é um político; é um metafísico que desespera da política.

3.2 Evola: Tradição, Raça e Força

Julius Evola é uma figura mais sombria e politicamente comprometida. Artista dadaísta convertido em filósofo tradicionalista e colaborador das ditaduras fascista e nazista (embora com uma relação complexa e frequentemente conflituosa com ambas), Evola desenvolveu em obras como Revolta contra o Mundo Moderno (1934) e Homens entre as Ruínas (1953) uma versão do Tradicionismo muito mais explicitamente política e hierárquica do que a de Guénon.

Para Evola, a decadência moderna é inseparável do que ele chama de “ginecocracia” — o domínio dos valores femininos (instinto, sentimento, comunidade, democracia, igualitarismo) sobre os valores virilis (razão, hierarquia, guerreiro, aristocracia). A solução não é metafísica mas política: a construção de uma aristocracia guerreira baseada em valores espirituais, a restauração de uma ordem imperial que supere o nacionalismo tribal mas mantenha a hierarquia essencial.

O papel de Evola no pensamento contemporâneo é difícil de superestimar — especialmente na direita radical europeia e americana. Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump, mencionou Evola explicitamente em entrevistas. O Proudhon russo Dugin é profundamente devedor de Evola. Em toda a direita radical europeia — de Giorgia Meloni na Itália (cuja tradição política, o Movimento Social Italiano, tem raízes diretas no fascismo e em Evola) aos círculos de extrema direita franceses — a influência evoliana é palpável.

3.3 O Tradicionismo como Língua Franca da Direita Radical

O que Guénon e Evola fornecem à direita radical contemporânea é uma linguagem filosófica que supera o chauvinismo nacional e permite construir solidariedades transnacionais. O “ocidentalismo” evoluído não defende uma nação específica, mas uma forma de civilização hierárquica e espiritual contra a nivelação liberal-igualitária. Esta linguagem pode ser facilmente adaptada a diferentes contextos nacionais e culturais — e foi.

Há uma ironia profunda aqui: os pensadores que mais influenciaram a direita anti-liberal contemporânea foram, eles próprios, profundamente universalistas em suas aspirações, mesmo que suas conclusões políticas fossem hierárquicas e exclusivistas. Guénon converteu-se ao Islam; Evola era, apesar de sua retórica racista, mais interessado na “raça da alma” do que na biologia. Mas seus sucessores tenderam a instrumentalizar estas ideias para fins de mobilização nacional e xenofóbica que os próprios mestres teriam, pelo menos parcialmente, rejeitado.


III-B. A Nova Direita Europeia: Alain de Benoist e o GRECE

3.4 O Metapolitics como Estratégia

Entre Julius Evola e o duginismo contemporâneo existe uma ponte intelectual essencial que frequentemente é subestimada nas análises anglófonas: a Nova Direita europeia (Nouvelle Droite) e seu principal teórico, o francês Alain de Benoist. Fundador do GRECE (Groupement de Recherche et d’Études pour la Civilisation Européenne) em 1968, de Benoist construiu ao longo de mais de cinquenta anos uma reelaboração sofisticada da direita radical que estrategicamente se distanciou das marcas mais comprometedoras do fascismo histórico para produzir algo novo: um conservadorismo revolucionário culturalmente influente, intelectualmente rigoroso e politicamente ambíguo.

A contribuição teórica mais duradoura de Benoist é provavelmente o conceito de “metapolítica” como estratégia de mudança cultural. Inspirado na leitura do gramscismo pela direita — a ideia de que a dominação cultural (hegemonia) precede e condiciona a dominação política —, Benoist argumentou que a direita perdeu a batalha política precisamente porque perdeu a batalha cultural. O liberalismo e o igualitarismo tornaram-se hegemônicos não pela força das armas mas pela conquista do campo semântico, das universidades, dos meios de comunicação, das categorias do pensamento. A resposta da direita não deve ser, portanto, o golpe de Estado ou a violência revolucionária, mas a reconquista metapolítica: a produção de novas formas de imaginação cultural que tornem possível, eventualmente, uma transformação política.

Esta estratégia metapolítica foi adotada pela direita radical em toda a sua extensão. O altright americano dos anos 2010, por exemplo, com seu uso deliberado de humor, memes, cultura pop e ironia para disseminar ideias extremistas em públicos jovens, é uma expressão popular desta lógica metapolítica. A ideia de que as batalhas culturais — sobre representação, linguagem, memória histórica, identidade — são o verdadeiro campo de batalha político é, hoje, um dos pontos de consenso mais sólidos tanto na direita quanto na esquerda contemporâneas.

3.5 A Crítica ao Universalismo como Etnocentrismo Disfarçado

Filosoficamente, a contribuição mais influente de Benoist é sua crítica ao universalismo como forma de etnocentrismo disfarçado. O argumento, que Benoist desenvolve em obras como Além dos Direitos Humanos (2004), é que o universalismo liberal — a proclamação de valores universalmente válidos para toda a humanidade — é em si uma forma particular de ver o mundo, enraizada na tradição específica da Europa Ocidental moderna, que se impõe como universal precisamente para apagar sua própria particularidade.

Este argumento tem uma estrutura que lembra o pós-estruturalismo de Derrida e o pós-colonialismo de Spivak — o que é, em si, filosoficamente interessante. A crítica ao “logocentrismo” ocidental e a defesa da différance (da diferença irredutível) em Derrida; a crítica ao “subalternismo” que silencia as vozes não-ocidentais em Spivak; a crítica ao “eurocentrismo” das ciências sociais clássicas na tradição pós-colonial — todas estas linhas de argumentação convergem, estruturalmente, com a crítica benoist-duginiana ao universalismo, embora partam de premissas políticas e chegam a conclusões radicalmente diferentes.

Benoist usa este argumento para defender o “etnopluralismo” — a ideia de que cada povo tem o direito a preservar sua identidade cultural específica contra a homogeneização global. Formulado assim, o argumento soa como defesa da diversidade cultural. Mas sua aplicação concreta é invariavelmente a defesa das identidades europeias contra a imigração. O “etnopluralismo” de Benoist é, em última análise, uma forma sofisticada de segregacionismo — a defesa da “diversidade” como argumento para a separação.


IV. Carl Schmitt: O Político contra o Liberal

4.1 O Conceito do Político

Nenhuma discussão sobre o pensamento político contemporâneo — especialmente sobre suas vertentes anti-liberais — pode ignorar Carl Schmitt (1888-1985), o jurista e filósofo político alemão que foi por um tempo membro do Partido Nazista e depois caiu em desgraça (paradoxalmente, por não ser nazista o suficiente, segundo o julgamento da SS). Schmitt é um dos pensadores mais influentes e mais moralmente problemáticos do século XX, cuja obra continua a circular amplamente tanto na direita quanto na esquerda.

O argumento central de Schmitt, formulado em O Conceito do Político (1932), é deceptivamente simples: o político se define pela distinção amigo/inimigo. Não há política sem esta distinção, e toda tentativa de construir uma política que a supere — seja através do liberalismo econômico (que dissolve o político no econômico), seja através do moralismo universal (que dissolve o político na ética) — é uma ilusão ou uma dissimulação. O liberalismo, para Schmitt, é fundamentalmente anti-político: ele pretende substituir as decisões políticas por procedimentos jurídicos, cálculos econômicos e deliberações racionais. Mas o que acontece quando o sistema liberal enfrenta uma ameaça existencial que não pode ser processada por esses mecanismos?

É aqui que entra a noção de “estado de exceção” (Ausnahmezustand) — o momento em que a normalidade jurídica é suspensa e o soberano revela-se como aquele que decide sobre a exceção. “Soberano é quem decide sobre o estado de exceção” — esta frase de abertura de Teologia Política (1922) é talvez a mais citada da filosofia política do século XX.

4.2 A Recepção de Schmitt: Da Esquerda à Direita

O que é fascinante — e perturbador — sobre Schmitt é que sua influência não se limita à direita. Pensadores da esquerda como Walter Benjamin, Giorgio Agamben, Chantal Mouffe e Ernesto Laclau bebem amplamente de Schmitt. Agamben, em Homo Sacer (1995) e Estado de Exceção (2003), usa o arcabouço schmittiano para analisar o campo de concentração como paradigma da biopolítica moderna e o “estado de exceção” como norma crescente das democracias contemporâneas. Chantal Mouffe usa Schmitt para criticar o consensualismo liberal habermasiano e defender um “pluralismo agonístico” — uma democracia que reconhece o conflito em vez de pretender superá-lo.

Esta ambiguidade política de Schmitt reflete uma ambiguidade filosófica real: sua crítica ao liberalismo aponta para algo genuíno — a incapacidade do liberalismo de reconhecer a dimensão conflitual e existencial do político —, mas suas conclusões apontam em direção ao autoritarismo, ao decisionismo e, em última instância, à lógica do “inimigo absoluto” que o levou à colaboração com o nazismo.

4.3 Schmitt e a Política Contemporânea

A relevância de Schmitt para o presente é evidente. A política contemporânea é caracterizada, em muitos países, pela escalada da lógica amigo/inimigo — a transformação de adversários políticos em inimigos existenciais, a erosão das normas procedimentais democráticas em favor de decisões decisionistas, a invocação de “estados de emergência” que suspendem direitos e procedimentos. Trump, Bolsonaro, Modi, Orbán, Erdoğan — todos estes líderes operam, em maior ou menor medida, dentro de uma lógica schmittiana de polarização, estado de exceção e soberania popular bruta contra as “elites” liberais.

Mas a esquerda progressista também não é imune ao schmittianismo. A tendência a transformar questões políticas em questões de justiça moral absoluta — a anular o espaço para o compromisso ao definir certas posições como inerentemente racistas, sexistas ou transfóbicas — é, em certo sentido, uma aplicação da lógica amigo/inimigo por parte de atores que se consideram o “lado certo da história”. O paradoxo é que tanto a direita populista quanto a esquerda identitária operam com uma lógica schmittiana, mas cada uma acredita que o inimigo é o outro.


V. Wang Huning e o Confucionismo de Estado: A Filosofia do Partido

5.1 O Ideólogo Invisível

Wang Huning é provavelmente o pensador mais poderoso e menos conhecido do presente. Membro do Comitê Permanente do Politburo do Partido Comunista Chinês — o corpo de sete pessoas que efetivamente governa a China — Wang é o arquiteto ideológico de três gerações de liderança chinesa: Jiang Zemin, Hu Jintao e Xi Jinping. Sua influência sobre a política chinesa é imensa, mas sua obra é pouco conhecida fora da China.

Wang Huning começa como acadêmico de ciência política em Xangai nos anos 1980, estudando o sistema político americano. Seu livro A América contra a América (1991), baseado em uma visita de estudos aos EUA, é um documento fascinante: um intelectual chinês analisando friamente as contradições do sistema americano — a desigualdade, o individualismo excessivo, a fragmentação social, a incapacidade de construir bem-estar coletivo — e concluindo que a democracia liberal americana está se destruindo por dentro.

5.2 Neoconfucionismo e a “Civilização Especial”

A posição filosófica de Wang Huning pode ser descrita como um neoconfucionismo de Estado pragmático. Contra o liberalismo universalista, Wang defende que diferentes civilizações têm formas de organização política próprias, enraizadas em suas tradições culturais. A China não pode ser liberalizada no modelo ocidental não porque o liberalismo seja errado em abstrato, mas porque ele é inadequado à história, à cultura e às necessidades específicas da civilização chinesa.

Esta argumentação tem raízes filosóficas profundas. O confucionismo clássico não tem o conceito de direitos individuais no sentido ocidental moderno; tem em seu lugar um sistema de relações hierárquicas recíprocas — pai/filho, soberano/súdito, marido/mulher, irmão mais velho/mais novo, amigo/amigo — onde cada posição tem direitos e obrigações específicos. A harmonia social (和諧, héxié) não é produto da competição de interesses individuais regulada por direitos, mas da performance correta dos papéis sociais.

Wang adapta esta tradição a um Estado moderno pós-marxista. O papel do Partido Comunista Chinês não é o de uma vanguarda proletária no sentido leninista original (embora a linguagem leninista seja mantida por razões de continuidade institucional), mas o de um novo mandarinato — uma elite governante que deriva sua legitimidade não da eleição democrática nem do sangue aristocrático, mas da competência técnica, da formação ideológica e da responsabilidade perante a “harmonia” social e o desenvolvimento nacional.

5.3 A Crítica Cultural ao Ocidente

O argumento mais influente que Wang contribuiu para o discurso político chinês é talvez o mais simples: o Ocidente está em declínio moral e cultural, e a China não deve importar este declínio junto com as tecnologias e os modelos econômicos ocidentais. A “armadilha de Tucídides” — a tensão entre uma potência estabelecida e uma potência ascendente — é não apenas militar e econômica, mas cultural. Se a China adota os valores do individualismo, do consumismo, do hedonismo e da fragmentação identitária que Wang observou na América, ela se destrói por dentro antes mesmo de competir com o Ocidente por fora.

Esta argumentação sustenta muitas das políticas de Xi Jinping: a campanha contra a “decadência ocidental” na cultura pop, as restrições à influência estrangeira na mídia e na educação, a ênfase nos “valores essenciais socialistas” que combinam elementos marxistas com elementos confucianos, o controle das plataformas digitais, as campanhas anticorrupção que servem também como instrumento de disciplina ideológica.

5.4 Wang Huning e a Competição dos Modelos

O que torna Wang Huning particularmente relevante para uma análise filosófico-política global é que seu pensamento aponta para uma nova fase da competição internacional: não apenas a competição entre Estados, mas a competição entre modelos de civilização. A China de Wang não está apenas disputando recursos e influência geopolítica — está disputando o direito de definir o que é uma boa sociedade, um governo legítimo, um ser humano florescente.

Neste sentido, Wang dialoga — sem o saber ou sem o querer — com Dugin, com os tradicionistas europeus, com os islamistas anti-ocidentais e com os populismos de direita que rejeitam o liberalismo: todos eles argumentam que a universalidade liberal é uma forma de particularismo disfarçado, que a “humanidade” abstrata do discurso de direitos é na verdade uma forma culturalmente específica (ocidental, burguesa, secular) de ser humano imposta ao resto do mundo.


VI. A Esquerda Progressista: Teoria Crítica, Interseccionalidade e Identidade

6.1 As Raízes Frankfurtianas

A esquerda progressista contemporânea tem suas raízes intelectuais mais profundas na Escola de Frankfurt — o grupo de filósofos e sociólogos que, nos anos 1930-1970, desenvolveram a “teoria crítica” como uma tentativa de renovar o marxismo à luz da derrota do proletariado europeu, do triunfo do fascismo, da cooptação do proletariado pelo consumismo e do horror do Holocausto.

Figuras como Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Erich Fromm e, numa segunda geração, Jürgen Habermas, tentaram responder à pergunta: por que a classe trabalhadora, que deveria (segundo Marx) ser o sujeito revolucionário da emancipação, apoiou ou tolerou o fascismo? A resposta frankfurtiana incorpora elementos da psicanálise freudiana (o papel do autoritarismo, do sadismo e do masoquismo na psicologia de massa), da crítica cultural (a “indústria cultural” como mecanismo de conformização), e da filosofia iluminista (a “dialética do esclarecimento” — a tendência da razão instrumental a voltar-se contra si mesma e produzir novas formas de dominação).

Herbert Marcuse é talvez o mais importante para entender a esquerda contemporânea. Em Eros e Civilização (1955) e O Homem Unidimensional (1964), Marcuse argumenta que o capitalismo avançado produziu uma “sociedade unidimensional” que integrou e neutralizou toda oposição através do consumismo, da satisfação de necessidades artificialmente criadas, e da transformação da sexualidade de força subversiva em produto de mercado. O “grande recusamento” que Marcuse propõe como alternativa não é a revolução proletária clássica — é uma negação total dos valores dominantes, uma liberação das forças libidinais reprimidas pela civilização capitalista.

Esta orientação marcusiana — a ênfase na libertação subjetiva, na transformação cultural, na crítica das normas dominantes de sexualidade, família e identidade — é uma das fontes filosóficas da virada “identitária” da esquerda pós-1968.

6.2 O Pós-Estruturalismo e a Desconstrução do Sujeito

A segunda grande fonte da esquerda progressista contemporânea é o pós-estruturalismo francês — Michel Foucault, Jacques Derrida, Judith Butler, e outros que, nos anos 1970-1990, desenvolveram uma crítica das categorias fundantes do pensamento moderno: sujeito, razão, verdade, identidade.

Michel Foucault é, possivelmente, o pensador mais citado nas humanidades contemporâneas. Em obras como Vigiar e Punir (1975) e A História da Sexualidade (1976-1984), Foucault desenvolve uma análise do poder que revolucionou as ciências humanas. Para Foucault, o poder não é primariamente repressão (não é apenas o Estado que proíbe e pune), mas produção: o poder produz sujeitos, corpos, verdades, normalidades. A prisão não apenas priva de liberdade — ela produz o “delinquente” como tipo humano. A medicina sexual não apenas classifica comportamentos — ela produz a “sexualidade” como dimensão fundamental da identidade humana. O poder é difuso, capilar, presente em todos os micropoderes da vida cotidiana: no consultório médico, na escola, no exame, na confissão.

A implicação política desta análise é que a emancipação não pode se limitar à conquista do Estado ou à transformação das relações econômicas — deve passar pela transformação das microfísicas do poder que constituem os sujeitos. É este insight foucaultiano que fundamenta, filosófica e metodologicamente, grande parte das políticas identitárias contemporâneas.

Judith Butler, em Problemas de Gênero (1990), levou esta lógica ao seu limite na análise do gênero. Para Butler, o gênero não é uma essência natural (a expressão de um sexo biológico) nem uma identidade subjetiva estável — é uma “performance”, uma repetição de atos que constituem retroativamente a aparência de uma essência. A heterossexualidade normativa não é natural — é uma construção que se mantém através da repetição compulsória de performances de gênero e da exclusão e abjection do que foge à norma. A política queer butleriana não propõe uma nova identidade estável, mas a subversão das normas de gênero através da sua paródia e proliferação.

6.3 A Interseccionalidade e a Política das Identidades

A teoria da interseccionalidade, desenvolvida pela jurista Kimberlé Crenshaw em 1989, é outro componente fundamental da esquerda progressista contemporânea. Crenshaw observou que as mulheres negras sofriam formas específicas de discriminação que não eram capturadas nem pelo feminismo (que tendia a centrar a mulher branca) nem pelo movimento pelos direitos civis (que tendia a centrar o homem negro). A intersecção de raça e gênero produzia uma experiência específica de opressão que exigia um framework analítico próprio.

A interseccionalidade passou de um instrumento analítico relativamente preciso para uma forma difusa de consciência política que vê a sociedade como um sistema de eixos de opressão interseccionais (raça, gênero, sexualidade, classe, capacidade, etc.) onde os sujeitos são simultaneamente posicionados em múltiplos eixos. A política progressista, neste quadro, exige o reconhecimento da particularidade das diferentes experiências de opressão e a construção de solidariedades que não apaguem as diferenças.

6.4 A Tensão Interna: Universalismo vs. Particularismo

A tensão fundamental da esquerda progressista contemporânea é entre o universalismo de sua herança iluminista e emancipatória (a ideia de que todos os seres humanos têm igual dignidade e devem ter direitos iguais) e o particularismo de suas análises identitárias (a ideia de que as opressões são sempre específicas, situadas, encarnadas em corpos e histórias particulares).

Esta tensão é filosoficamente genuína e não pode ser resolvida facilmente. O marxismo clássico era universalista: o proletariado era o sujeito universal da emancipação, cujos interesses coincidiam com os interesses da humanidade. A crítica feminista e pós-colonial ao marxismo apontou, corretamente, que este universalismo era parcial — que omitia as especificidades de opressão que não eram redutíveis à exploração de classe. Mas a resposta particularista — enfatizar as especificidades irredutíveis de cada forma de opressão — corre o risco de fragmentar qualquer projeto político comum.

Žižek, em sua crítica às políticas identitárias (paradoxalmente, da esquerda), argumenta que o capitalismo neoliberal tolera e até incentiva a proliferação de identidades diversas, desde que não ameacem as relações de produção. Uma empresa pode ser racialmente diversa, igualitária em termos de gênero e inclusiva em termos de sexualidade, e continuar explorando trabalhadores. O multiculturalismo corporativo é, para Žižek, a forma ideológica do capitalismo tardio — não sua crítica.


VII. Mark Fisher e o Realismo Capitalista: A Melancolia da Esquerda

7.1 O Que Não Conseguimos Imaginar

Mark Fisher (1968-2017) foi um crítico cultural e filósofo britânico cuja obra — especialmente Realismo Capitalista (2009) e Fantasmas de Minha Vida (2014) — capturou com extraordinária precisão a experiência subjetiva da esquerda contemporânea: a sensação de derrota, de impossibilidade, de que o capitalismo se tornou tão hegemônico que não conseguimos mais imaginar alternativas.

O “realismo capitalista” de Fisher é o nome para esta condição ideológica: não é tanto a crença de que o capitalismo é bom, mas a impossibilidade de imaginar que poderia ser diferente. Esta condição é mais paralisante do que qualquer forma de propaganda pró-capitalista, porque opera não através da convicção mas através do horizonte do possível: o capitalismo tornou-se o que Derrida chamaria de “o indiscutível”, a condição de possibilidade de todo discurso.

Fisher aponta para um paradoxo cultural fascinante: enquanto a cultura popular dos anos 1970-1980 estava cheia de imagens de futuros radicalmente diferentes (tanto utópicos quanto distópicos), a cultura contemporânea é caracterizada pelo que ele chama de “slow cancellation of the future” — a repetição, o revival, o remake, a nostalgia. A ficção científica contemporânea reimagina passados alternativos em vez de imaginar futuros radicalmente novos. A música pop recicla sonoridades de décadas anteriores. A hauntologia (neologismo que Fisher toma de Derrida) é a cultura que é assombrada por futuros que nunca se realizaram.

7.2 A Depressão como Sintoma Político

O que torna Fisher particularmente relevante é sua insistência em conectar a psicologia individual com a estrutura política. A epidemia de depressão, ansiedade e distúrbios mentais nas sociedades contemporâneas não é apenas um problema de saúde individual — é um sintoma político. O neoliberalismo privatizou o sofrimento: converteu problemas que têm causas sociais e políticas (precariedade econômica, isolamento, ausência de perspectivas) em patologias individuais que devem ser tratadas através de medicação e terapia individual.

Esta análise tem ressonâncias com a tradição frankfurtiana (especialmente com Fromm e Marcuse) e com Foucault (a psiquiatria como dispositivo de normalização). Mas Fisher a aplica com uma acuidade empírica e uma raiva pessoal que faz de seus textos algo bastante diferente da teoria acadêmica.

7.3 O Projeto Inacabado

Fisher morreu por suicídio em 2017, deixando inacabado o que seria seu projeto mais ambicioso: uma análise da “Acid Communism” — uma tentativa de recuperar os potenciais emancipatórios dos movimentos contraculturais dos anos 1960-70 que foram neutralizados e incorporados pelo neoliberalismo. O título é provocativo: combinar o radicalismo psicodélico dos anos 60 com o projeto comunista, encontrar em experiências de alteração da consciência e em formas de solidariedade coletiva os recursos para uma nova imaginação política.

É um projeto que permanece como questão aberta: o que significa imaginar uma política de esquerda que não esteja paralisada pelo realismo capitalista, que não seja nostálgica (a ilusão de voltar ao Estado de bem-estar keynesiano), mas que seja capaz de construir um futuro genuinamente diferente?


VIII. A Convergência dos Extremos: O Paradoxo do Presente

8.1 A Estranha Aliança Anti-Liberal

Uma das características mais perturbadoras da política contemporânea é a convergência de forças que deveriam ser mutuamente hostis. O campo anti-liberal inclui, sem que seus membros pareçam perceber a estranheza da coexistência: aceleracionistas tecnológicos do Vale do Silício, populistas cristãos evangélicos, tradicionistas europeus de extrema direita, islamistas anti-ocidentais, eurasianos russos, comunistas chineses, esquerdistas anti-imperialistas ocidentais e pensadores pós-coloniais.

O que une este campo heteróclito não é uma ideologia positiva compartilhada — é uma rejeição comum. Todos eles rejeitam (em maior ou menor medida) o conjunto de valores e instituições que convencionamos chamar de “ordem liberal internacional”: democracia representativa, direitos individuais, livre mercado, separação entre esfera pública e privada, universalismo moral, globalização.

Esta convergência não é acidental. Ela reflete uma crise real do liberalismo que os pensadores mais perspicazes de todas estas tradições diagnosticaram corretamente: o liberalismo realmente existente no início do século XXI não corresponde aos seus ideais proclamados. Ele produziu desigualdade crescente, destruiu comunidades e formas de vida tradicionais sem substituí-las por nada significativo, legitimou guerras de agressão em nome da democracia, manteve duplos padrões óbvios em sua aplicação de valores e criou um sistema de governança global opaco que responde primariamente aos interesses do capital financeiro.

8.2 A Crítica ao Liberalismo como Campo Filosófico

A crítica ao liberalismo é um dos campos filosóficos mais ricos do presente, e é importante não reduzi-lo às suas expressões mais grosseiras e manipulatórias. Há críticas ao liberalismo que são filosoficamente sofisticadas e politicamente sérias, mesmo quando suas conclusões políticas são inaceitáveis.

A crítica comunitarista (Alasdair MacIntyre, Charles Taylor, Michael Sandel) argumenta que o liberalismo pressupõe um “eu desencumbrado” — um sujeito que pode escolher livremente seus valores e identidades independentemente de qualquer contexto comunitário — que é tanto filosoficamente implausível quanto politicamente destrutivo. Os seres humanos são constitutivamente comunitários: nossas identidades, valores e capacidade de raciocínio prático são formadas por tradições, práticas e comunidades que não escolhemos. Uma política que ignora esta dimensão está construindo sobre areia.

A crítica republicana (Philip Pettit, Quentin Skinner) argumenta que o liberalismo tem uma concepção de liberdade excessivamente estreita — liberdade como ausência de interferência — que ignora a dimensão da dominação. Um escravo cujo dono nunca o molesta ainda não é livre, porque depende do dono. A liberdade genuína requer não apenas ausência de interferência, mas ausência de dominação — e isto requer estruturas políticas e econômicas que o liberalismo de mercado não pode garantir.

A crítica pós-colonial (Frantz Fanon, Gayatri Spivak, Achille Mbembe) aponta que o liberalismo universalista foi historicamente inseparável do colonialismo: os “direitos humanos” universais foram proclamados ao mesmo tempo em que populações inteiras eram escravizadas, colonizadas e exterminadas. Esta contradição não é meramente contingente — há algo na estrutura do universalismo abstrato que o torna compatível com (e historicamente cúmplice de) formas brutais de dominação particular.

8.3 O Fantasma de Hegel: Dialética sem Síntese?

Hegel é o grande fantasma que atravessa todos estes debates. Para Hegel, a história tem uma lógica dialética: cada posição engendra sua negação, e da tensão entre tese e antítese emerge uma síntese que supera (aufheben — supera, preserva e eleva) ambas. Francis Fukuyama, infamemente, argumentou em 1989 que a vitória do liberalismo sobre o comunismo representava o “fim da história” no sentido hegeliano: a democracia liberal seria a síntese final do processo histórico, o sistema político que melhor realizava a “ideia” da liberdade.

Trinta anos depois, é difícil sustentar este otimismo. O que estamos vivendo parece menos uma síntese hegeliana do que uma fragmentação pós-hegeliana: não há síntese à vista, mas uma proliferação de antíteses que disputam o espaço com uma tese liberal que não consegue mais reproduzir seu próprio horizonte de credibilidade.

Ou talvez — e esta é uma possibilidade que os filósofos mais pessimistas consideram — a dialética hegeliana foi sempre uma fantasia. Talvez a história não tenha uma lógica, e o presente não seja uma crise a ser superada por uma síntese, mas simplesmente o estado das coisas. Neste caso, a pergunta não é “o que virá depois do liberalismo” mas “como sobreviveremos sem ele”.


IX. Tecnologia, Biopolítica e o Humano em Questão

9.1 Foucault, Agamben e o Homo Sacer

Qualquer filosofia política contemporânea séria precisa confrontar a questão da tecnologia não apenas como instrumento, mas como condição ontológica. Dois filósofos são particularmente importantes aqui: Foucault, com o conceito de biopolítica, e Giorgio Agamben, com o conceito de homo sacer.

Foucault, em A Vontade de Saber (1976), introduz o conceito de “biopolítica” para designar a forma de poder que se exerce sobre as populações através da gestão dos corpos e da vida: controle da natalidade, da saúde pública, da higiene, da sexualidade, da mortalidade. A biopolítica não trabalha com indivíduos mas com populações, não com leis mas com normas, não com punição mas com regulação.

Agamben, em Homo Sacer (1995), radicaliza esta análise através do conceito romano de “homo sacer” — o ser humano que pode ser morto sem que seja considerado homicídio, que está excluído tanto do direito humano quanto do sacrifício religioso, que vive no que Agamben chama de “vida nua” (zoé, a vida biológica despida de qualificações políticas). O campo de concentração, para Agamben, não é uma aberração do Estado moderno — é seu paradigma: o espaço onde a vida nua fica exposta ao poder soberano sem nenhuma mediação jurídica.

A relevância deste quadro para o presente é óbvia: a pandemia de COVID-19 produziu, em todo o mundo, formas de biopolítica de massa (lockdowns, passaportes vacinais, rastreamento digital) que levantaram precisamente as questões que Foucault e Agamben teorizaram. Não surpreende que Agamben tenha sido amplamente citado — tanto por pensadores críticos sérios quanto por conspiracionistas — durante a pandemia.

9.2 O Transumanismo e a Superação do Humano

O aceleracionismo de Land, como vimos, aponta para além do humano. Esta orientação transumanista — a crença de que a tecnologia permitirá a superação das limitações biológicas da condição humana — tem uma dimensão filosófica própria que merece atenção.

O transumanismo tem diversas vertentes: o “extropianismo” libertário de Natasha Vita-More e Max More nos anos 1990, o “singularitarismo” de Ray Kurzweil (a ideia de que a inteligência artificial ultrapassará a humana em um momento específico, a “singularidade tecnológica”), as visões de Nick Bostrom e do Future of Humanity Institute sobre os riscos existenciais da IA, e as versões mais recentes ligadas ao movimento Effective Altruism.

O que é filosoficamente interessante no transumanismo é que ele radicaliza o projeto iluminista ao ponto de subvertê-lo. O Iluminismo afirmou a dignidade e a autonomia do ser humano enquanto ser racional — mas o transumanismo conclui que se a razão e a autonomia são boas, então mais razão e mais autonomia (produzidas pela tecnologia) são ainda melhores. O humano não é um valor final, mas uma plataforma provisória para algo mais.

Esta lógica tem ressonâncias com o aceleracionismo de Land (o humano como obstáculo) mas também — curiosamente — com certas leituras do transhumanismo de esquerda: a libertação das limitações biológicas (incluindo as de gênero, de saúde, de mortalidade) como extensão do projeto emancipatório.

9.3 O Capitalismo de Vigilância

Shoshana Zuboff, em A Era do Capitalismo de Vigilância (2019), oferece uma análise do presente tecnológico que é simultaneamente empírica (sobre o funcionamento real das grandes plataformas digitais) e filosófica (sobre o que esta forma de poder significa para a natureza humana e a política democrática).

O “capitalismo de vigilância” é a forma de acumulação baseada na extração, análise e mercantilização do comportamento humano. Google, Facebook/Meta, Amazon e outras plataformas não vendem apenas produtos e serviços: vendem predições comportamentais. O “produto” é o comportamento futuro dos usuários, vendido como commodity a anunciantes. Para maximizar a precisão das predições, as plataformas precisam maximizar a coleta de dados, o que as incentiva a monitorar cada vez mais aspectos da vida humana.

O ponto filosófico central de Zuboff é que esta forma de poder é qualitativamente nova: não é apenas espionagem ou vigilância no sentido tradicional, mas uma tentativa de modificar o comportamento em escala. O capitalismo de vigilância não quer apenas saber o que fazemos — quer determinar o que faremos. Isso representa uma ameaça à “soberania comportamental” — à capacidade humana de deliberar e escolher livremente.


X. Filosofia da História: Tempo, Decadência e Utopia

10.1 O Problema do Tempo Político

Em um nível mais fundamental, o que divide os movimentos políticos contemporâneos não é apenas o conteúdo de suas políticas, mas sua filosofia do tempo. Cada corrente política tem uma concepção de onde estamos na história, para onde a história vai (ou se vai para algum lugar), e o que devemos fazer em face dessa localização temporal.

O liberalismo progressista, herdeiro do iluminismo, tem uma filosofia do tempo linear e ascendente: a história é progresso, as coisas tendem a melhorar, os retrocessos são provisórios. O arco do universo moral é longo, mas curva-se em direção à justiça (na célebre formulação de Martin Luther King). Os retrocessos populistas são perturbadores, mas temporários — a maré da história voltará a avançar.

O conservadorismo, em suas diversas formas, tem uma filosofia do tempo que valoriza o passado como reservatório de sabedoria acumulada: Edmund Burke contra a Revolução Francesa, o “prejuízo” (prejudice) como alternativa política à razão abstrata. O que funcionou deve ser preservado; as mudanças devem ser incrementais e respeitosas do que existe.

O tradicionismo de Guénon e Evola tem uma filosofia do tempo cíclico-decadente: estamos no Kali Yuga, a era sombria, e as coisas não vão melhorar espontaneamente. A resposta é a preservação (ou restauração) do contato com a “Tradição Primordial” que as forças da modernidade tentam apagar.

O aceleracionismo de Land tem uma filosofia do tempo que poderíamos chamar de “colapso como transição”: o presente é insustentável e deve colapsar, e este colapso é não apenas inevitável mas desejável como condição para o surgimento de algo genuinamente novo. O tempo não é linear nem cíclico — é catastrófico.

10.2 Walter Benjamin e a Filosfia da História

Walter Benjamin, em suas “Teses sobre o Conceito de História” (escritas em 1940, ano de seu suicídio para escapar da Gestapo), desenvolveu uma filosofia da história que é, ao mesmo tempo, o diagnóstico mais lúcido da crise do progresso e uma das mais belas peças filosóficas do século XX.

Contra a concepção social-democrata de história como progresso inevitável, Benjamin propõe a imagem do “Anjo da História” — inspirada no quadro “Angelus Novus” de Paul Klee. O anjo tem o rosto voltado para o passado, onde vê não uma cadeia de eventos, mas “uma catástrofe única que continua empilhando escombro sobre escombro”. Ele quer parar, despertar os mortos e reunir os fragmentos. Mas uma tempestade o empurra irresistivelmente em direção ao futuro — e esta tempestade é o que chamamos de progresso.

O insight benjaminiano é duplo: por um lado, a crítica ao progressismo que acumula os escombros do passado sem olhá-los; por outro, a insistência na “redenção” — a possibilidade de que o presente “cite” o passado de forma a redimir suas vítimas, a recuperar os projetos não realizados, a abrir o que estava fechado. A revolução não é um evento que continua o progresso — é uma “suspensão” do tempo homogêneo vazio, o “salto de tigre no passado”.

Esta filosofia do tempo benjaminiana — que não é nem progressista nem reacionária, nem cíclica nem linear, mas interruptiva e redentora — permanece como um dos recursos mais ricos do pensamento político crítico.


VI-B. Gramsci, Polanyi e a Grande Transformação Revisitada

6.5 Gramsci e a Hegemonia Cultural

Antonio Gramsci, o filósofo marxista italiano que escreveu seus Cadernos do Cárcere nas prisões de Mussolini nos anos 1930, é talvez o pensador mais amplamente influente sobre os movimentos políticos contemporâneos — tanto de direita quanto de esquerda — de quem menos se fala diretamente. Sua teoria da hegemonia tornou-se o ABC de qualquer reflexão séria sobre poder cultural, e foi adotada (como vimos no caso de Benoist) por espectros políticos que Gramsci teria repudiado.

Para Gramsci, o poder capitalista não se mantém apenas pela coerção (força policial, exército, prisão) mas pela hegemonia: a capacidade de fazer com que a visão de mundo das classes dominantes seja aceita como “senso comum” pelas classes subalternas. A dominação é mais eficaz quando se torna invisível, quando os dominados a experimentam não como opressão externa mas como “ordem natural das coisas”. A luta política, portanto, não é apenas ou primariamente a luta pelo poder do Estado, mas a “guerra de posições” — a lenta conquista da hegemonia cultural, a construção de um “bloco histórico” de forças sociais que compartilham uma visão alternativa do mundo.

Esta análise gramsciana ilumina muito do que acontece na política contemporânea. O “bom senso” neoliberal — a ideia de que mercados livres, Estado mínimo e competição individual são simplesmente o modo racional de organizar a sociedade — é o produto de décadas de trabalho hegemônico: institutos de pesquisa, fundações, universidades, mídia, que construíram pacientemente um “consenso” que tornou outras visões marginais ou impensáveis. A crise deste consenso — que é o que estamos vivendo — não é apenas econômica ou política, mas precisamente a crise da hegemonia que Gramsci teorizou.

6.6 Karl Polanyi e os Movimentos de Contra-Reação

Karl Polanyi, o economista austro-húngaro que escreveu A Grande Transformação (1944), oferece outro recurso filosófico indispensável para compreender o presente. Polanyi argumentou que a ideia de um mercado auto-regulado — livre de qualquer enquadramento social, político ou moral — é uma utopia historicamente específica do século XIX que nunca existiu de fato, e que sua tentativa de realização produziu as catástrofes políticas do século XX (fascismo, nazismo, estalinismo).

O argumento central de Polanyi é o do “duplo movimento”: cada avanço da mercantilização — a transformação de terras, trabalho e dinheiro em mercadorias — gera um movimento de contra-reação que tenta reembedded a economia em relações sociais e proteger as comunidades humanas dos seus efeitos destrutivos. Este movimento de proteção pode assumir formas progressistas (Estado de bem-estar, sindicalismo, regulação democrática) ou regressivas (fascismo, nacionalismo xenófobo, protecionismo autoritário). O que determina qual forma o movimento de proteção assume é a qualidade das instituições políticas e da cultura cívica existentes.

A relevância de Polanyi para o presente é impressionante. O neoliberalismo dos anos 1980-2008 foi a tentativa mais ambiciosa de realização da utopia do mercado auto-regulado desde o século XIX. A crise de 2008, o populismo de Trump e Brexit, os movimentos sociais de protesto que emergiram nos anos 2010 — tudo isso pode ser lido, à luz de Polanyi, como formas do “duplo movimento” de contra-reação à mercantilização neoliberal. A questão filosófica e política crucial é: que formas assume este movimento de proteção? Solidárias ou excludentes? Cosmopolitas ou xenófobas? Democráticas ou autoritárias?


XII. O Islamismo Político e a Terceira Via Religiosa

12.1 Sayyed Qutb e a Modernidade Ignorante

Qualquer cartografia do pensamento político global que omita o islamismo político seria gravemente incompleta. As filosofias políticas islâmicas contemporâneas não são simplesmente “reação” ao Ocidente — têm uma genealogia intelectual própria e complexa que precisa ser compreendida em seus próprios termos antes de ser avaliada externamente.

O pensador mais influente do islamismo político radical é provavelmente Sayyed Qutb (1906-1966), o intelectual egípcio da Irmandade Muçulmana que foi executado por Nasser. Em sua obra mais influente, Ma’alim fi al-Tariq (Marcos no Caminho, 1964), Qutb desenvolveu uma versão radicalizada da noção corânica de jahiliyya (ignorância pré-islâmica) para descrever não apenas a sociedade não-muçulmana, mas as próprias sociedades nominalmente muçulmanas que adotaram categorias políticas e culturais ocidentais. Para Qutb, toda a ordem política moderna — democracia, socialismo, nacionalismo — é uma forma de jahiliyya, uma rejeição da soberania de Deus (hakimiyyat Allah) em favor da soberania humana. A única resposta legítima é a restauração do governo islâmico baseado na sharia.

A influência de Qutb sobre Al-Qaeda, o Estado Islâmico e os movimentos jihadistas contemporâneos é direta e documentada. Mas é importante notar que Qutb não é a única tradição do pensamento político islâmico. A Revolução Iraniana de 1979 produziu, na figura de Khomeini e de intelectuais como Ali Shariati, uma versão do islamismo político que incorporou elementos do marxismo terceiro-mundista, do existencialismo e da sociologia crítica em um quadro religioso xiita. Shariati, em particular, é uma figura filosófica fascinante: marxista islâmico que tentou sintetizar Frantz Fanon com a teologia xiita, produzindo uma filosofia da libertação que mobilizou as classes médias urbanas iranianas contra o Shah.

12.2 A Crítica Islâmica à Modernidade

O que o islamismo político — em suas diversas formas — compartilha com o tradicionismo europeu de Guénon e Evola, com o eurasianismo de Dugin e com certos elementos do confucionismo de Wang é uma crítica profunda à modernidade secular: a rejeição da separação entre esfera pública e esfera religiosa, a recusa do individualismo como fundamento da vida social, a insistência em que a vida humana tem um sentido transcendente que não pode ser reduzido ao bem-estar material ou à liberdade de escolha.

Esta convergência estrutural — que é explorada por Dugin em sua estratégia de construir alianças transversais com movimentos islâmicos anti-ocidentais — não deve ser confundida com identidade filosófica. As tradições islâmicas, confucianas e europeias têm concepções radicalmente diferentes do que é uma boa sociedade e de como ela deve ser organizada. O que compartilham é menos uma visão positiva do que uma rejeição comum: do universalismo liberal, do secularismo, do individualismo e da hegemonia ocidental.


XIII. Pensadores Orbitais: Žižek, Mouffe, Laclau e a Reconstrução da Esquerda

13.1 Žižek: O Jester Dialético

Slavoj Žižek é provavelmente o filósofo contemporâneo mais publicamente visível — e deliberadamente exasperante. Filósofo esloveno que combina psicanálise lacaniana, dialética hegeliana, materialismo marxista e análise da cultura popular em uma mistura explosiva e frequentemente contraditória, Žižek produziu uma obra vasta que desafia qualquer classificação simples.

O projeto filosófico central de Žižek pode ser descrito como a tentativa de recuperar o sujeito hegeliano-marxista num momento em que o pós-estruturalismo o havia dissolvido em diferenças e contingências irredutíveis. Contra Foucault, Derrida e Butler, Žižek insiste que há algo como uma “verdade” que não é simplesmente o produto de jogos de poder, e que há um sujeito capaz de atos genuinamente transformadores — o que ele chama, emprestando de Lacan, de o “ato” que rompe com a ordem simbólica existente.

A crítica de Žižek às políticas identitárias é politicamente inconfortável para muitos na esquerda, mas filosoficamente séria. Para Žižek, a proliferação de identidades e lutas por reconhecimento é a forma como o capitalismo tardio neutraliza a oposição: ao transformar a política em gestão da diversidade, ao converter o antagonismo de classe em competição entre identidades, o capitalismo consegue manter intactas as relações de exploração enquanto aparece como “tolerante” e “inclusivo”. A luta pela identidade não é errada — mas é insuficiente e pode, paradoxalmente, servir ao sistema que pretende combater.

13.2 Mouffe e Laclau: O Populismo como Estratégia

Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, em Hegemonia e Estratégia Socialista (1985), propuseram uma rearticulação da política de esquerda que tem sido enormemente influente. Contra o essencialismo marxista clássico (que derivava a política da posição de classe), Laclau e Mouffe argumentaram que as identidades políticas são construídas discursivamente, através de “cadeias de equivalência” que articulam demandas heterogêneas em torno de um “significante vazio” — uma identidade política que simboliza o conjunto sem ter conteúdo fixo.

Este quadro teórico levou Laclau, em sua obra tardia A Razão Populista (2005), à surpreendente conclusão de que o populismo — a construção de um “povo” em oposição a uma “elite” — é não apenas uma patologia política (como o tratam os liberais), mas a forma fundamental de qualquer política transformadora. O populismo de esquerda (que Mouffe defendeu em Para Um Populismo de Esquerda, 2018) seria a construção de um “povo” progressista que articula demandas de igualdade, justiça social e democracia radical contra as elites econômicas e políticas.

Esta teoria teve influência real sobre movimentos como Podemos na Espanha e La France Insoumise na França, que adotaram explicitamente a retórica e a estratégia do populismo de esquerda. Ela representa uma tentativa de recuperar a energia populista — que a direita vinha explorando com enorme sucesso — para fins progressistas. A questão filosófica em aberto é se o populismo pode ser domesticado para fins democráticos ou se sua lógica — a construção do “povo” através da exclusão do “inimigo” — tende inevitavelmente para o autoritarismo schmittiano.


XIV. O Problema da Verdade: Pós-Verdade como Condição Política

14.1 A Erosão da Epistemologia Pública

Uma dimensão filosófica do presente que não pode ser ignorada é a crise da epistemologia pública — a destruição dos mecanismos sociais de produção e validação da verdade. A “pós-verdade” não é simplesmente o produto de líderes sem escrúpulos ou de populações ignorantes: é o sintoma de uma crise mais profunda nas instituições que, nas sociedades democráticas modernas, tinham a função de arbitrar disputas sobre os fatos.

Esta crise tem causas estruturais complexas. As plataformas digitais criaram ecossistemas de informação altamente fragmentados onde diferentes grupos vivem em “bolhas” de realidade incompatíveis. Os mecanismos de atenção das redes sociais favorecem o conteúdo emocionalmente carregado, chocante e confirmador de vieses existentes. A desigualdade crescente destruiu a confiança nas instituições (mídia, universidades, governos, especialistas) que tinham a função de validar a verdade factual. E o pós-estruturalismo acadêmico — com sua insistência na construtividade social de toda “verdade” e na relação entre conhecimento e poder — forneceu, paradoxalmente, recursos intelectuais que podem ser instrumentalizados para rejeitar qualquer reivindicação de objetividade.

Steve Bannon, estrategista de Trump, formulou explicitamente a estratégia de “flooding the zone with shit” — inundar o espaço público com desinformação em tal volume que se torna impossível distinguir o verdadeiro do falso, paralisando a capacidade de resposta da oposição. Esta não é apenas uma tática eleitoral — é uma filosofia política do epistemicídio: a destruição das condições de possibilidade de um discurso público baseado em fatos.

14.2 Hannah Arendt e a Fábrica da Realidade

Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo (1951) e Entre o Passado e o Futuro (1961), analisou com extraordinária lucidez o papel da mentira e da destruição da realidade factual no totalitarismo. Para Arendt, a característica mais destrutiva do totalitarismo não era apenas a violência — era a destruição do “senso comum”, do espaço público compartilhado onde os fatos podem ser discutidos e onde a ação política tem sentido.

A “banalidade do mal” que Arendt identificou em Eichmann não era a monstruosidade excepcional — era a ausência de pensamento: a incapacidade de tomar a perspectiva do outro, de julgar a partir de uma posição própria, de resistir às pressões do sistema. Esta ausência de pensamento é produzida e reforçada pela destruição do espaço público compartilhado — o que a política de pós-verdade sistematicamente realiza.

O que Arendt chamou de “political lie” — a mentira política que não pretende ser acreditada mas sim destruir a crença em qualquer verdade — é o instrumento fundamental do autoritarismo contemporâneo. Quando Trump afirma coisas que todos sabem ser falsas, o efeito não é enganar (muitos dos seus apoiadores sabem que ele mente), mas demonstrar poder: a capacidade de impor uma realidade alternativa pela força da vontade política.


XV. Tecnologias de Controle e Resistência: Do Panóptico às Redes

15.1 Do Panóptico de Bentham ao Sinóptico das Redes

O conceito foucaultiano de panóptico — derivado da proposta de Jeremy Bentham de uma prisão onde um único guardião pode observar todos os presos sem ser visto — tornou-se uma das metáforas filosóficas mais usadas na análise do poder moderno. A ideia central é que a eficácia da vigilância não depende da sua permanência, mas da consciência de que se pode ser observado a qualquer momento: os presos internalizam o olhar do guardião e se auto-disciplinam.

Mas o sociólogo Zygmunt Bauman observou que as redes sociais inverteram parcialmente esta lógica: nas plataformas digitais, os usuários expõem voluntariamente a sua vida privada ao olhar dos outros — não para um observador centralizado e invisível, mas para uma multidão de pares. O “sinóptico” — muitos observando muitos — complementa e modifica o panóptico. A disciplina social nas redes não é imposta de cima para baixo por um poder soberano, mas distribuída horizontalmente através das práticas de vigilância mútua, cancelamento e conformidade social.

Esta transformação tem implicações filosóficas profundas para a teoria política. Se o poder nas redes é distribuído e horizontal, os instrumentos da crítica do poder centralizado tornam-se parcialmente inadequados. A liberdade não se conquista apenas contra o Estado ou contra o capital — mas também contra a tirania difusa da opinião pública digital, com seus mecanismos de linchamento moral e de expulsão simbólica.

15.2 Tecnologia e Novas Formas de Subjetividade

Uma das questões filosóficas mais urgentes do presente é a da transformação das subjetividades pelas tecnologias digitais. A questão não é apenas instrumental (como usamos a tecnologia) mas ontológica (o que a tecnologia faz de nós). As plataformas digitais não são simplesmente ferramentas neutras que usamos para fins próprios — elas moldam ativamente as formas de atenção, de relacionamento, de construção de identidade e de processamento da realidade.

O filósofo Bernard Stiegler, que passou grande parte de sua carreira analisando a relação entre tecnologia (pharmakon — veneno e remédio ao mesmo tempo, no sentido derridiano) e subjetividade humana, argumentou que as tecnologias de atenção contemporâneas produzem o que ele chamou de “proletarização do espírito”: assim como a industrialização proletarizou o trabalho manual (retirando do trabalhador o controle sobre o processo e o produto do trabalho), as indústrias da atenção proletarizam o saber-viver e o saber-fazer: as competências de atenção, memória, julgamento e deliberação que constituem o sujeito autônomo são terceirizadas para os algoritmos.

Esta análise estieglerliana tem ressonâncias com o diagnóstico aceleracionista de Land (o humano como suporte provisório que está sendo dispensado), mas chega a conclusões radicalmente diferentes: não a celebração da desumanoização, mas o luto pela perda das capacidades de subjetivação e a busca de novas formas de individuação que resistam à proletarização algorítmica.


XVI. A Crise Ecológica como Crise Filosófica

16.1 Bruno Latour e a Política da Natureza

Nenhuma filosofia política contemporânea pode ignorar a crise ecológica — e não apenas como problema técnico ou econômico, mas como desafio filosófico fundamental. A crise climática e a destruição das condições ecológicas da vida humana colocam questões que as categorias políticas modernas — tanto de esquerda quanto de direita — não foram desenhadas para responder.

Bruno Latour, o filósofo e sociólogo francês que passou décadas desconstruindo a distinção moderna entre “natureza” e “cultura”, “ciência” e “política”, desenvolveu nos seus últimos anos (antes de sua morte em 2022) uma filosofia política explicitamente orientada para o desafio ecológico. Em Diante de Gaia (2015) e Onde Pousar? Como Orientar-se em Política (2017), Latour argumentou que a modernidade foi construída sobre a separação entre “natureza” (domínio objetivo, externo, apolítico) e “sociedade” (domínio subjetivo, humano, político). Esta separação permitiu ao projeto moderno tanto a instrumentalização da natureza (exploração sem limites) quanto a ilusão de que os problemas políticos eram independentes dos problemas ecológicos.

A crise climática destrói esta separação: a natureza irrompe na política, não como recurso ou como contexto, mas como agente que responde às ações humanas e altera as condições de possibilidade da política. Latour propõe que precisamos de uma nova “cosmopolítica” que inclua os não-humanos (o clima, os ecossistemas, as outras espécies) como actores políticos, em vez de tratá-los como mero palco das disputas entre humanos.

16.2 O Colapso como Horizonte e a Filosofia do Depois

A possibilidade de colapso civilizacional — não como metáfora aceleracionista mas como risco concreto decorrente da crise climática — coloca questões filosóficas que até recentemente eram reservadas à ficção científica. O “colapso” não é um evento único e total, mas um processo de degradação progressiva das condições de vida de populações crescentes. E os movimentos políticos do presente estão, em parte, sendo moldados pela antecipação (consciente ou inconsciente) deste processo.

Os aceleracionistas abraçam o colapso como catarse. Os populistas de direita propõem fortalecimento das fronteiras e prioridade nacional como resposta às pressões migratórias e econômicas que o colapso produz. Os progressistas insistem em transições justas e políticas de redistribuição. Os tradicionalistas propõem um retorno a formas de vida menos dependentes das cadeias globais de produção.

Nenhuma destas respostas parece adequada à escala do desafio. E esta inadequação é, em si mesma, filosoficamente significativa: aponta para os limites das categorias políticas herdadas e para a necessidade urgente de novas formas de imaginação política que o presente ainda não produziu.


XI. A Batalha pelo Sentido: Para Uma Conclusão Filosófica

11.1 O Que Está Realmente em Jogo

Chegamos, depois deste longo percurso, a uma posição de onde podemos tentar uma síntese filosófica do que está em jogo na política contemporânea.

O que está em jogo não é primariamente uma batalha sobre políticas econômicas, sobre quem deve governar, sobre como organizar a seguridade social ou a política comercial. Estas são questões importantes, mas são derivadas de questões mais profundas que raramente são articuladas explicitamente nas arenas políticas convencionais.

O que está em jogo é uma batalha sobre o humano: o que é um ser humano, o que a vida humana pode e deve ser, o que constitui um florescimento humano genuíno. E esta batalha, por sua vez, está conectada a uma batalha sobre o tempo: onde estamos na história, para onde vamos, o que devemos preservar e o que devemos transformar.

O liberalismo clássico apostou no indivíduo livre, racional e autônomo como categoria fundamental e na história como progresso em direção à realização crescente desta liberdade. Esta aposta foi parcialmente bem-sucedida — produziu formas reais de emancipação — mas revelou também seus limites: o indivíduo abstrato do liberalismo é uma ficção que desconhece as formas concretas de dependência, pertencimento e vulnerabilidade que constituem a existência humana real. E o progresso que o liberalismo prometeu beneficiou sistematicamente alguns (os proprietários, os brancos, os ocidentais, os homens) às custas de outros.

A direita radical responde a esta crise do liberalismo com uma aposta nas identidades coletivas — nação, raça, civilização, tradição — como fundamentos alternativos da vida política. Esta aposta também captura algo real: os seres humanos precisam de pertencimento, de tradição, de comunidade, de significado que transcende o indivíduo. Mas ao articular estas necessidades através da exclusão e da hierarquia — ao definir a comunidade pelo inimigo, ao fundar o pertencimento na rejeição do “outro” —, a direita radical transforma em veneno o que poderia ser nutrição.

A esquerda progressista, por sua vez, tentou corrigir o liberalismo de dentro, expandindo o círculo dos sujeitos reconhecidos — incluindo os excluídos do prometido universalismo — e aprofundando a crítica das formas de dominação que o liberalismo naturalizava. Esta é uma tarefa filosoficamente e politicamente legítima. Mas a tendência a fragmentar o projeto emancipatório em múltiplas lutas por reconhecimento identitário, cada uma reivindicando sua especificidade irredutível, tornou difícil construir solidariedades políticas amplas e sustentar um horizonte comum.

Os aceleracionistas, em suas múltiplas versões, diagnosticaram a paralisia das alternativas convencionais e apostaram no colapso como solução. Mas o colapso não é uma política — é um desejo. O que vem depois do colapso não é determinado pela força da filosofia que o antecipa, mas pelas relações de poder, pelas estruturas materiais e pelas capacidades organizativas que existem no momento em que as estruturas antigas se desfazem.

11.2 A Questão da Legitimidade

Uma questão filosófica que atravessa todos estes debates é a da legitimidade política. O que torna um governo legítimo? O que justifica a obediência às leis e às instituições?

O liberalismo moderno (na tradição de Locke, Kant, Rawls) respondeu: o consentimento dos governados, realizado através de procedimentos democráticos que garantem a participação e a proteção dos direitos individuais. A legitimidade é procedimental: um governo é legítimo não por seu conteúdo (suas políticas podem ser equivocadas) mas por sua forma (foi escolhido democraticamente, respeita os procedimentos constitucionais).

A direita populista (na tradição de Schmitt e de sua recepção popular contemporânea) responde: a legitimidade é substantiva, não procedimental. O “povo” tem uma vontade real que os procedimentos formais podem trair — e o líder populista que encarna esta vontade tem uma legitimidade que supera a dos procedimentos. Esta é a lógica do “a voz do povo” contra as “elites”, da soberania popular bruta contra o Estado de direito.

A tradição confuciana (e Wang Huning) responde: a legitimidade deriva da competência e da responsabilidade — do cumprimento efetivo das funções de governo, do bem-estar da população, da harmonia social. Um governo que garante desenvolvimento econômico, estabilidade social e harmonia civilizacional tem uma legitimidade que não requer eleições competitivas.

A questão da legitimidade não é apenas acadêmica — ela está no centro das crises políticas contemporâneas. Quando metade da população de uma democracia acredita que as eleições foram fraudadas, ou que as instituições servem apenas a elites corruptas, a crise não é apenas de comunicação ou de fake news — é uma crise de legitimidade no sentido filosófico profundo.

11.3 A Possibilidade de Uma Filosofia Política para o Século XXI

Diante deste quadro, o que seria uma filosofia política adequada ao presente?

Primeiro, precisaria ser honesta sobre as falhas do liberalismo sem capitular à sedução dos seus adversários. A crítica do liberalismo é legítima e necessária — mas as alternativas que se apresentam como suas substitutas tendem a repetir seus erros em formas mais brutais. A crítica intransigente é mais necessária do que a escolha entre famílias de ilusões.

Segundo, precisaria levar a sério a dimensão comunitária e cultural da vida humana sem fetichizá-la. Os seres humanos precisam de pertencimento, tradição e significado — mas estas necessidades podem ser satisfeitas de formas que incluem em vez de excluir, que abrem em vez de fecham.

Terceiro, precisaria enfrentar honestamente a questão tecnológica. A tecnologia — especialmente a inteligência artificial e as plataformas digitais — está transformando as condições da vida política, econômica e existencial de maneiras que as categorias políticas herdadas não capturam adequadamente. Nem a celebração aceleracionista nem a rejeição ludista são respostas filosóficas satisfatórias.

Quarto, precisaria recuperar a dimensão do futuro sem ser ingenuamente progressista. A ideia de que as coisas “naturalmente” melhoram é uma ilusão que a história do século XX destruiu definitivamente. Mas a alternativa não é a desesperança ou a nostalgia — é o que Benjamin chamava de “esperança para os que não têm esperança”: a capacidade de imaginar e lutar por um futuro diferente mesmo na ausência de garantias históricas.

Quinto, precisaria ser pluralista sem ser relativista. O pluralismo — o reconhecimento de que há múltiplas formas legítimas de vida humana boa, que não há uma única resposta às questões de como viver — é uma intuição filosófica profunda que deve ser preservada. Mas o pluralismo não implica relativismo — a ideia de que qualquer forma de vida é igualmente válida, que não há bases para julgar o genocídio pior que a democracia.

11.4 Filosofia e Política: A Distância Necessária

Uma última observação filosófica: há um perigo específico em cada um dos pensadores examinados neste ensaio, que é o perigo de dissolver a distância entre filosofia e política. Cada um deles, em maior ou menor medida, usou sua filosofia para justificar projetos políticos específicos — com resultados frequentemente desastrosos.

Heidegger aderiu ao nazismo. Dugin legitimou a invasão da Ucrânia. Os tradicionistas forneceram linguagem filosófica a fascistas. Os aceleracionistas celebraram o colapso que traz sofrimento real a pessoas reais. E mesmo no campo progressista, há uma tendência de usar o aparato filosófico da teoria crítica para justificar práticas políticas de cancelamento e exclusão que traem os princípios emancipatórios que as motivaram.

A filosofia política tem a obrigação de manter uma distância crítica da política — não por desinteresse ou por covardia, mas por responsabilidade. Sua tarefa é pensar as condições de possibilidade das formas políticas, analisar as pressuposições filosóficas dos projetos políticos, expor as contradições que os protagonistas não veem ou não querem ver. Esta tarefa é mais difícil — e mais importante — do que fornecer legitimação filosófica a qualquer projeto específico.

11.5 O Espectro do Fascismo

Uma questão filosófica que não pode ser evadida é: o que é o fascismo, e ele pode retornar? Não como regime histórico específico, mas como forma de política. Umberto Eco, em seu ensaio “O Ur-Fascismo” (1995), identificou catorze características do que chamou de “fascismo eterno” — traços que, presentes em diferentes combinações, definem uma forma de sensibilidade política que pode se manifestar em qualidades e intensidades variadas sem nunca repetir exatamente suas formas históricas. Entre eles: o culto da ação pela ação, a irracionalidade, o apelo à frustração das classes médias, a obsessão com conspiração, o pacifismo como traição, o desrespeito pelo fraco, o machismo e o armamentismo, o populismo qualitativo (o povo como unidade monolítica sem contradições internas) e o Newspeak — a impoverização da linguagem para reduzir a capacidade de pensamento crítico.

Hannah Arendt observou que os movimentos totalitários não se sustentam pela crença em suas ideologias, mas pela experiência de pertencimento e de significado que oferecem em sociedades atomizadas. Neste sentido, o fascismo é uma patologia que se alimenta das mesmas fontes que deveriam alimentar formas mais saudáveis de vida coletiva: a necessidade de comunidade, de reconhecimento, de participação em algo maior que o eu individual. A crítica filosófica ao fascismo não pode se limitar à refutação de suas ideias — precisa oferecer alternativas que satisfaçam estas necessidades legítimas de formas não destrutivas.

11.6 A Questão da Agência e do Sujeito Político

Uma das mais profundas aporias da filosofia política contemporânea é a questão da agência: em um mundo onde os sistemas econômicos são globais e opacos, onde as plataformas tecnológicas moldam a consciência em escala, onde as crises ecológicas têm causas difusas e consequências não-lineares — quem pode agir politicamente, e como?

O marxismo clássico tinha uma resposta clara: o proletariado, organizado em partido de vanguarda, poderia agir coletivamente para transformar as relações de produção. Esta resposta revelou seus problemas tanto teóricos quanto práticos. O liberalismo tem outra resposta: o cidadão individual, informado e racional, que participa nos processos democráticos. Esta resposta também revelou seus limites sistêmicos. As teorias contemporâneas dispersaram a agência em múltiplos sujeitos e escalas, mas ao fazê-lo correram o risco de dissolvê-la completamente.

A longa sombra da modernidade e sua promessa incumprida atravessa todos estes impasses. A modernidade prometeu emancipação: libertação das hierarquias naturais e divinas, igualdade racional entre os seres humanos, domínio da natureza a serviço do bem-estar humano, progresso histórico em direção a formas melhores de vida. Estas promessas não foram completamente falsas — produziram avanços reais na condição humana. Mas foram também sistematicamente traídas. Os movimentos políticos contemporâneos são, em grande medida, diferentes formas de responder a esta traição. E a tarefa filosófica urgente é pensar o que seria uma modernidade que cumprisse suas promessas sem as suas traições — não a escolha entre as ilusões existentes, mas a invenção de formas de pensar que estejam à altura da complexidade do que vivemos.


Coda: A Batalha das Ideias não Terminou

Este ensaio tentou mapear a cartografia intelectual do presente político — mostrando que por baixo das turbulências das redes sociais, dos escândalos midiáticos e das crises eleitorais, existe um combate filosófico profundo sobre o sentido da modernidade, sobre o que é o humano, sobre o que a história pode e deve ser.

Nick Land e o aceleracionismo nos dizem que o capitalismo tecnológico é uma força inumana que está destruindo as categorias humanas — e que devemos ou abraçar este processo ou aceitá-lo como inevitável. Alexander Dugin e o eurasianismo nos dizem que o mundo deve ser multipolar, que cada civilização deve ter o direito de desenvolver sua forma própria de vida contra a hegemonia ocidental. Wang Huning nos diz que a Civilização Chinesa tem respostas próprias às questões de governo e organização social que o Ocidente liberal não pode, ou não quer, compreender. Os tradicionistas nos dizem que a modernidade é uma decadência espiritual que só pode ser superada por um retorno à Tradição Primordial. A esquerda progressista nos diz que o projeto emancipatório do Iluminismo está incompleto e deve ser radicalmente expandido para incluir todos os excluídos. Mark Fisher nos diz que estamos paralisados por uma incapacidade de imaginar alternativas ao capitalismo. Benjamin nos diz que a história é uma catástrofe de cujos escombros precisamos resgatar os projetos não realizados.

Nenhum destes diagnósticos é completamente errado. Nenhum deles é completamente certo. O que eles têm em comum — e o que os torna indispensáveis para quem quer pensar seriamente o presente — é que não se contentam com as superfícies. Eles insistem em perguntar o que está fundamentalmente em jogo, em desenterrar as pressuposições que governam silenciosamente nosso pensamento e nossa ação.

A batalha das ideias não terminou com o “fim da história” de Fukuyama. Ela se intensificou, se diversificou e se tornou mais urgente. E seu resultado não está determinado — depende, entre outras coisas, da qualidade do pensamento que conseguirmos mobilizar para compreendê-la.

Cada pensador examinado neste ensaio capturou uma dimensão real da condição humana contemporânea. Land capturou a lógica destrutiva e auto-superadora do capitalismo tecnológico. Dugin capturou o ressentimento real contra o imperialismo que se apresenta como universalismo. Evola e Guénon capturaram a necessidade humana de hierarquia, transcendência e significado vertical. Schmitt capturou a dimensão irredutível do conflito e da decisão na política. Wang capturou os limites do universalismo ocidental e a legitimidade de formas não-liberais de governação. Gramsci capturou a centralidade da batalha pela hegemonia cultural. Foucault capturou a micropolítica do poder disciplinar e biopolítico. Butler capturou a performatividade das categorias identitárias que parecem naturais. Fisher capturou a paralisia da imaginação política sob o realismo capitalista. Polanyi capturou a dinâmica do mercado que destrói as comunidades e provoca reações de proteção que podem assumir formas libertadoras ou opressivas.

O pensamento filosófico sério não consiste em escolher qual destes pensadores tem razão — consiste em colocá-los em tensão uns com os outros, em usar cada um para criticar os outros, em extrair o que há de genuíno em cada perspectiva sem capitular às suas conclusões mais problemáticas. Esta é uma prática difícil, desconfortável e sempre inacabada. Mas é, precisamente, o que distingue o pensamento da propaganda, a filosofia da ideologia, a busca da verdade da busca do poder.

A cartografia do caos que tentamos esboçar neste ensaio não é um mapa que indica um destino — é um instrumento para navegar em território desconhecido, sabendo que o mapa nunca é o território, que as categorias herdadas são sempre provisórias, e que a tarefa do pensamento filosófico é precisamente a de permanecer aberto ao que ainda não tem nome. O presente político, com toda a sua violência e confusão, é também um convite ao pensamento — talvez o mais urgente que já nos foi feito.


Este ensaio foi elaborado como análise filosófica e não representa o endosso de nenhuma das posições políticas ou filosóficas examinadas. Pensadores como Dugin, Evola e Land são analisados por sua influência real sobre os movimentos políticos contemporâneos, não por adesão às suas propostas.


Nota sobre fontes e método (revisão de outubro de 2026)

Este ensaio apresenta, de forma interpretativa e resumida, ideias de autores como Dugin, Evola, Land e outros, com base em suas obras publicadas e na literatura secundária. Não é um tratado de história intelectual, e as sínteses podem simplificar posições complexas; recomendo recorrer aos textos originais.

Corrigido nesta revisão: o CCRU (Cybernetic Culture Research Unit) foi fundado em Warwick em meados dos anos 1990, e não no início da década.

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